Search
Close this search box.

Oscar sumariza bom ano no cinema com escolhas sentimentais, mas inteligentes

Academia mais internacional aos poucos muda paradigmas e acomoda diferentes vertentes de cinema enquanto celebra blockbusters e egressos de festivais de cinema como Cannes, Veneza e Sundance

Por Reinaldo Glioche

Oscar 204
Foto: Montagem sobre reprodução

Muita gente chiou nas redes sociais da “esnobada” de Margot Robbie na categoria de Melhor Atriz e Greta Gerwig em direção por “Barbie”, mas elas estão indicadas como produtora e roteirista respectivamente pelo filme, que amealhou 8 indicações à estatueta dourada, inclusive a pouco provável de Atriz Coadjuvante para America Ferrera. Demonstração eloquente do entusiasmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com o filme, a despeito da incompreensão das redes sociais.

A Academia escolhe os indicados por brunch, ou seja, editores votam em Edição, atores nas categorias de atuação, diretores de fotografia em Fotografia e assim por diante. Dessa forma, é natural que haja descompassos, mas eles se fazem sentir cada vez menos. Neste ano, talvez, a categoria de Trilha Sonora em que John Williams alargou seu recorde como indivíduo com mais indicações ao Oscar pelo trabalho no último “Indiana Jones” ocupe esse posto. Havia candidatos melhores, mas em um colegiado tão vasto e disforme, alguns vícios precisam ser tolerados.

“Oppenheimer”, como esperado, lidera a disputa com 13 indicações. É o 11º filme a receber essa quantidade de indicações e deve ser o sétimo sagrado Melhor Filme nessas circunstâncias. O longa, que também concorre em Direção e Roteiro Adaptado reúne o maior número de performances indicadas (3) e se qualifica, até pelas chances em maioria, a ser o longa mais premiado da noite.

“Pobres Criaturas” e “Assassinos da Lua das Flores” vêm na sequência em números de indicações com 11 e 10 respectivamente. Dos 10 indicados a Melhor Filme, apenas “Vidas Passadas” ostenta poucas indicações – lembrado apenas em uma outra categoria (Roteiro Original). Fato que reforça a consistência dos indicados que, cada qual a sua maneira, mimetizam uma boa temporada para o cinema; fundamentalmente, porém, transparecem a capacidade cada vez mais refinada da academia de fazer escolhas sentimentais, sim, mas sem prescindir da inteligência.

oppenheimer 3
“Oppenheimer” lidera a disputa com 13 indicações. O Oscar acontece em 10 de março | Foto: Divulgação

“Oppenheimer”, um filme autoral com excepcional ressonância comercial, foi celebrado pelo feito cinematográfico que é. “Barbie”, o fenômeno cultural extraordinário que furou bolhas, tem sua dimensão bem calibrada no Oscar que, ciente de sua condição como bússola cultural, aprofunda sua sintonia com festivais de cinema vocacionados a irrigar a sétima arte. Por isso mesmo muitos filmes estreados em Cannes, como “Perfect Days”, “Anatomia de uma Queda”, “Zona de Interesse” e “Segredo de um Escândalo”, em “Veneza – “Pobres Criaturas”, “Maestro” – e Sundance – “Vidas Passadas” – estão na lista.

Os temas do Oscar

Em um ano que as guerras se avolumaram – o conflito entre Rússia e Ucrânia segue em alta voltagem e o Oriente Médio viu uma pulverização de tensões com a escalada do conflito entre Israel e Hamas -, é pertinente observar como a Academia se virou para ensaios sobre a banalidade do mal. Da industrialização da morte com a criação da bomba atômica – tema central de “Oppenheimer – ao vertiginoso e por vezes nauseantes olhar para a maneira desumana com que os nativos americanos da etnia Osage foram explorados e mortos por homens brancos gananciosos na gênese da América. Foco de “Assassinos na Lua das Flores”. Há, ainda, “Zona de Interesse”, que rememora o nazismo sob uma perspectiva totalmente nova em uma momento de clara ascensão do antissemitismo.

Dúvidas e digressões também estão presentes de maneira difusa e cativante em outros indicados como “Os Rejeitados”, “Anatomia de uma Queda” e “Vidas Passadas”.

Por fim, imperioso registrar que o Oscar continua sendo um prêmio extremamente subjetivo, alvo de diversos e multifacetados estímulos, mas é visível o esforço, ano após ano, para mimetizar o que de melhor foi feito no cinema e a boa notícia é que distâncias estão sendo diminuídas nesse sentido. O Oscar está mais inclusivo diegética e extradiegéticamente.

Deixe um comentário

Posts Recentes