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“Ela Disse” flagra a gênese do #MeToo em reverência ao bom jornalismo

Por Reinaldo Glioche

Longa de Maria Schrader evita o vislumbre com o tema e opta por iluminar o detalhado trabalho e hercúleo esforço das jornalistas que expuseram a rotina de abusos de Harvey Weinstein, um dos mais celebrados e poderosos produtores de Hollywood

Filmes sobre jornalismo ou grandes episódios da história que estão intrinsecamente relacionados à atividade jornalística costumam ostentar um tom solene e/ou embarcar no arquétipo do herói. A cineasta alemã Maria Schrader, que este ano concorreu ao Oscar de Filme Internacional com “O Homem Ideal”, evita essa armadilha seguindo a cartilha do “Spotlight” de Tom McCarthy.

Importante registrar, porém, que “Ela Disse”, excetuando a sobriedade do registro e o foco na engrenagem jornalística para revelar um caso sórdido que abalaria o establishment, pouco tem a ver com o filme vencedor do Oscar em 2016.

Aqui, o “sistema” não é Hollywood, uma instituição tão abstrata quanto a igreja, mas algo ainda mais intangível, o sexismo institucionalizado. Não à toa, o filme começa com a jornalista Megan Twohey, interpretada com afinco por Carey Mulligan, enfrentando um doloroso revés após convencer duas mulheres a vocalizarem suas experiências de abuso com Donald Trump para vê-lo pouco depois ser eleito presidente dos EUA.

A presença de Ashley Judd, uma das principais vozes contra Harvey Weinstein, revivendo sua participação na revelação da intrincada teia de abusos que tinha o produtor como principal artífice, adiciona fervura ao todo. “Ela Disse” se assemelha bastante, em termos narrativos, a um drama procedural, porque se demora nas minúcias da construção de uma reportagem que poderia muito bem sequer existir. É essa sombra que dá dramaticidade à produção, que se revolve em torno de celulares, muitas ligações, conversas e maridos que apoiam suas mulheres.

Patricia Clarkson, Carey Mulligan e Zoe Kazan em cena de “Ela Disse”/ Fotos: divulgação

Eis um produto analógico em tempos digitais. Talvez por isso, por valorizar uma boa história dentro de uma boa história, por evitar a militância, sempre a via mais fácil, e entender o cinema também como uma força testemunhal, que “Ela Disse” passe despercebido nessa largada da temporada de premiações no cinema americano.

Eis uma circunstância que, além de injusta, aproxima o longa do material que aborda. Dessas ironias poéticas que o cinema ascende de quando em quando e que, mesmo um filme tão bem urdido quanto “Ela Disse”, não está imune. Ao optar por focar na história e não na importância do tema, Schrader dá uma importante lição ao jornalismo contemporâneo e também ao cinema.

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