Por Reinaldo Glioche
A quinta temporada de “Machos Alfa” consolida um movimento que já vinha se desenhando desde os primeiros anos: o de transformar a comédia em um dispositivo de observação social das masculinidades contemporâneas. Com apenas seis episódios — formato enxuto introduzido na quarta temporada lançada em janeiro —, a série mantém sua eficiência narrativa ao mesmo tempo em que densifica os conflitos de seus protagonistas. A renovação antecipada para uma sexta e última temporada sugere não apenas planejamento, mas também a consciência de que esse ciclo tem um arco a ser concluído.
Pedro (Fernando Gil), Santi (Gorka Otxoa), Raúl (Raúl Tejon) e Luis (Fele Martinez) seguem como vetores de uma investigação sobre o que significa “ser homem” em um contexto de códigos instáveis. A série parte de uma premissa simples, mas produtiva: a de que há um descompasso entre a velocidade das transformações sociais e a capacidade individual de assimilá-las. É nesse hiato que se instala o humor e, sobretudo, o desconforto.
O caso de Santi é emblemático. Ao vivenciar uma situação de assédio por parte de uma cliente, ele reage de acordo com um repertório “desconstruído”, que acumula desde o início da série. A resposta da empresa, no entanto, relativiza o ocorrido sob critérios pragmáticos: trata-se de uma cliente relevante, não de uma funcionária; logo, o problema é diluído. A série expõe, com precisão, a ambiguidade institucional diante de novas dinâmicas de poder e gênero. Não há aqui uma resolução moral clara, mas a evidência de que os protocolos ainda são insuficientes para lidar com essas zonas cinzentas.
Raúl, por sua vez, encarna talvez o arco mais instável da temporada. Sua dificuldade em estabelecer vínculos afetivos o leva a experimentar uma identidade que ele nomeia como “heteroflexível”, mas que se revela mais como sintoma de desorientação do que como descoberta legítima. A série evita caricaturar essa trajetória, mas também não a romantiza. Há um esforço em mostrar como certas narrativas de liberdade podem, paradoxalmente, funcionar como novas formas de pressão identitária.

Pedro representa uma linha de maior equilíbrio. Sua separação de Daniela (Maria Hervás) evolui para uma convivência funcional, sobretudo na criação do filho, e sua aproximação com uma nova parceira — financeiramente dominante — inverte papéis tradicionais de provisão. O interessante aqui é que a série não trata essa inversão como mero artifício cômico, mas como uma reconfiguração concreta de expectativas de gênero. Pedro aceita essa dinâmica com relativa naturalidade, o que sugere uma masculinidade menos defensiva e mais adaptativa.
Já Luis opera no campo do conflito mais explícito. Seu divórcio com Esther (Raquel Figueiredo) é marcado por disputas recorrentes, especialmente em torno de responsabilidades financeiras e afetivas. A recusa em pagar pensão, sob o argumento de que ambos podem trabalhar, tensiona discussões sobre igualdade formal e desigualdade prática. Paralelamente, o comportamento de Esther — ao instrumentalizar sua posição para se relacionar com aspirantes a atores — espelha práticas historicamente atribuídas a homens, criando um jogo de inversões que a série explora sem didatismo.
Um dos méritos centrais da temporada está na forma como esses conflitos não apenas evoluem, mas retornam sob novas configurações. Não há uma progressão linear de “aprendizado”, mas um movimento mais realista de repetição com variação. A reaproximação entre Raúl e Luz (Kira Miró), por exemplo, surge menos como resolução e mais como reconhecimento mútuo de fragilidades.
Do ponto de vista formal, “Machos Alfa” mantém sua capacidade de alternar humor físico, situações absurdas e diálogos ancorados em experiências cotidianas. Esse equilíbrio é fundamental para que a série não se torne panfletária. Ao contrário, ela preserva a ambiguidade como método: provoca o riso, mas também exige interpretação.
Um dos eixos mais interessantes desta temporada é a abordagem da solidão. A experiência de Santi, ao se deparar com o diagnóstico da filha de que possui uma “energia pegajosa”, desencadeia uma tentativa de autossuficiência afetiva — a chamada “sologamia”. O conceito, tratado com leveza, permite à série explorar a tensão entre solidão e solitude em uma sociedade estruturada para relações a dois. Aqui, o humor serve como porta de entrada para uma questão mais ampla: a dificuldade contemporânea de sustentar a própria companhia sem que isso seja percebido como falha.

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O sucesso internacional da série, com adaptações em países como Itália, Holanda e Alemanha, indica que seu núcleo temático possui ressonância transnacional. Ainda assim, há uma especificidade cultural na forma como a versão espanhola articula esses conflitos, combinando franqueza emocional com ironia.
Ao final, a quinta temporada reafirma “Machos Alfa” como uma das comédias mais consistentes do catálogo da Netflix. Sua relevância não está apenas na capacidade de fazer rir, mas em como estrutura esse riso a partir de tensões reais. A decisão de encerrar no sexto ano parece adequada do ponto de vista narrativo, mas não elimina a sensação de que ainda haveria material a explorar. Talvez esse seja, paradoxalmente, o melhor indicativo de vitalidade de uma série: saber que ela poderia continuar e ainda assim optar por concluir.