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A moda em um mundo pautado por influencers

Redação Culturize-se

A moda sempre foi um diálogo íntimo, quase silencioso, entre quem veste e quem pensa o vestir. Hoje, esse diálogo acontece em telas de sete polegadas, comentários em tempo real e algoritmos que decidem o que é relevante antes mesmo de uma peça tocar a pele. A cultura influencer não mudou apenas como a lógica das vendas, mas quem tem o direito de ditar o que é moda.

Uma pesquisa da Vogue Business com 101 profissionais da moda — designers, jornalistas, estilistas, editores — revelou que 91,1% sentem pressão para ter presença nas redes sociais, e mais de 90% acreditam que seu perfil digital impacta diretamente suas carreiras.

O Instagram deixou de ser vitrine. Virou currículo, salário, seguro de desemprego. E isso transformou o estilista de figura invisível em produto também.

A stylist Julia Sarr-Jamois, que trabalha com celebridades e agora também é representada por uma agência que cuida de criativos que atuam “atrás e na frente das câmeras”, resume bem essa nova realidade: “A indústria da moda é muito esnobe. Eu queria provar que era estilista. Não achava que a indústria me levaria a sério se eu fosse uma ‘meio estilista'”.

Hoje, ela é fotografada do lado de fora dos desfiles, e essas imagens alimentam tanto sua carreira quanto suas clientes. A linha entre quem cria a imagem e quem é a imagem desapareceu.

No Brasil, essa transformação tem uma cara particularmente comercial. Vimos surgir o que o mercado passou a chamar de “influempreendedores” — influenciadores que, em vez de apenas vender produtos de terceiros, criam suas próprias marcas. Rafa Kalimann, com 22 milhões de seguidores, lançou a RK com consultoria do estilista André Boffano, que já passou por Givenchy. Angelica Bucci, com 34 mil seguidores, criou sua marca homônima. Marina Ruy Barbosa tem a Ginger. A NV de Nati Vozza foi adquirida pelo grupo Soma por R$ 210 milhões.

O que esses números dizem é simples: o influenciador não precisa mais da moda. A moda, cada vez mais, precisa dele.

Foto: Deposiphotos

André Boffano, que assina o estilo de algumas dessas marcas, define seu papel com honestidade brutal: “Elas têm o lifestyle delas, os gostos delas, e eu levo um lado mais comercial e o aspecto técnico”.

Essa frase contém toda a tensão do nosso tempo. O estilista deixou de ser o autor para ser o tradutor. Não mais quem diz “isto é moda”, mas quem interpreta o gosto de alguém que já tem audiência e a converte em produto vendável. É uma troca, sim. Mas é uma troca onde o poder está claramente de um lado.

O problema não é a colaboração. O problema é a velocidade. O ciclo de uma coleção tradicional leva meses de pesquisa, desenvolvimento de tecido, provas, ajustes. Um influencer pode lançar uma “coleção” em seis semanas, filmar o processo, transformar a fábrica em conteúdo e vender tudo em 48 horas. O consumidor, especialmente a Geração Z, confia mais no rosto que conhece do que na etiqueta que não conhece.

Isso não é apenas uma mudança de canal de venda. É uma mudança de hierarquia de valor.

Ainda assim, resistir é possível. E necessário! A estilista Lethicia Bronstein, em 2021, expôs publicamente a falta de crédito (e de pagamento) quando Juliette Freire usou seu vestido em ação publicitária. “Normalmente, a praxe é comunicar a marca. Caso a marca aceite, fica acordado um valor. E isso não foi feito”, declarou Bronstein, acrescentando que “o tratamento com estilistas internacionais é totalmente diferente, os créditos nunca são esquecidos”.

Esse episódio ilustra algo profundo: quando a imagem do influencer se sobrepõe à peça, quem a criou se torna invisível. E a invisibilidade, para um criador, é uma forma de morte lenta.

Mas há também uma oportunidade nesse caos. A moda sempre foi sobre democratização — de quem pode usar, de quem pode criar, de quem pode consumir. Se influencers trouxeram mais pessoas para dentro dessa conversa, isso é bom. O que precisamos é de um novo contrato social: o influencer reconhece o estilista, o estilista reconhece o poder do influencer, e ambos entendem que nenhum look existe sozinho. Como disse a editora de moda Gabriella Karefa-Johnson: “Você pode ser um artista sério e gostar de compartilhar sua vida com uma comunidade online”.

O que não se pode é confundir visibilidade com autoridade. Um estilista não é um influencer. Um influencer não é um estilista. E a moda, quando é feita com verdade, precisa de ambos, mas em papéis distintos. O estilista precisa da rua, do corpo real, da prova de que uma ideia funciona fora da tela. O influencer precisa do estilista para que seu look não seja apenas mais um post esquecido em 24 horas.

Isso tudo, claro, depende fundamentalmente da compreensão do consumidor, de que moda de verdade não é o que aparece no feed. É o que permanece no armário.

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