Redação Culturize-se
Quando a Christie’s decidiu que Nicole Kidman seria o rosto de sua campanha para o leilão da coleção S.I. Newhouse, a casa de leilões apostava em algo mais valioso que qualquer obra de arte: a atenção do público. O resultado? Em apenas 40 minutos na noite de segunda-feira (18), mais de US$ 630 milhões (cerca de R$ 3,5 bilhões) mudaram de mãos, com recordes quebrados para Jackson Pollock e Constantin Brancusi. Ao final, o evento totalizou impressionantes US$ 1,1 bilhão (R$ 6,1 bilhões), consolidando-se como um dos maiores leilões da história.
A estratégia de marketing foi meticulosamente construída em torno de um vídeo promocional que mostrava Kidman em encontro fluido com “Danaïde”, o busto dourado de Brancusi que se tornaria o lote-estrela da noite. Filmado com inspiração em um curta dos anos 1930 de Man Ray sobre a surrealista Lee Miller, o vídeo posicionava a atriz como mediadora entre o público contemporâneo e a vanguarda modernista do século XX. Não viralizou como o icônico anúncio da AMC protagonizado por Kidman — aquele em que ela declarava “viemos a este lugar em busca de magia” —, mas provou que a estrela australiana carrega um peso comercial inegável, mesmo fora das salas de cinema.
“Danaïde” respondeu à aposta: alcançou US$ 107,6 milhões (R$ 600 milhões) com taxas, pulverizando o recorde anterior de Brancusi em leilão, de US$ 71,2 milhões (R$ 400 milhões). Quase assim que os martelos começaram a bater, o busto de bronze dourado já rumava a território inédito. “Brancusi foi um inovador tão moderno”, justificou Sara Friedlander, diretora de arte pós-guerra e contemporânea da Christie’s, “e então acho que, para nós, fazer coisas inovadoras em torno de objetos extraordinários é algo com o qual também estamos experimentando.”
A experimentação rendeu frutos ainda mais expressivos com Pollock. Uma de suas pinturas de gotejamento em larga escala — das quais pouquíssimas permanecem em coleções privadas — disparou sob aplausos até US$ 181,2 milhões (R$ 1 bilhão), tornando-se o lote de maior valor da noite. Curiosamente, o expressionista abstrato não contou com o auxílio midiático de Kidman, sugerindo que a estratégia da Christie’s operava em múltiplas camadas: a celebridade abria portas para novos públicos, mas a qualidade intrínseca das obras sustentava o frenesi dos lances.

Esta foi a quarta vez que a Christie’s leiloava peças do falecido magnata da mídia S.I. Newhouse, dono da Condé Nast. Mas foi a primeira em que o apelo hollywoodiano se fundiu tão explicitamente ao universo das artes plásticas. A coleção, vendida em parcelas desde 2019 — quando “Rabbit”, de Jeff Koons, estabeleceu recorde de US$ 91 milhões (R$ 510 milhões) para artista vivo —, agora ganhava um capítulo final de dimensões épicas, impulsionado pela redução do espaço doméstico da viúva Victoria Newhouse. “Não estou ficando mais jovem”, explicou ela ao The New York Times. “É um esforço para simplificar minha vida.”
O mercado de arte de alto padrão, liderado pela Christie’s e pela Sotheby’s, vinha atravessando período de incertezas após leilões fracos e turbulências econômicas globais. A aposta em coleções de proprietários únicos — como as de Paul G. Allen (cuja venda em 2022 rendeu US$ 1,5 bilhão), Leonard A. Lauder e Agnes Gund — tornou-se a receita para reaquecer demanda por obras raras do século XX. Na mesma semana, três obras-primas de Gund estabeleceram recorde de US$ 98,4 milhões (R$ 550 milhões) para Mark Rothko.
Se Kidman estava falando sobre pipoca e telas escuras quando prometeu “magia”, o mercado de arte provou que ela também sabe conjurá-la. Bastou posicionar uma estrela global diante de um busto modernista para transformar 40 minutos em meio bilhão de dólares.