Redação Culturize-se
Há um momento que todo arquiteto conhece e poucos conseguem descrever com precisão: o instante em que se entra em um espaço e algo acontece antes que a razão possa nomear o quê. Um arrepio. Uma sensação de amplidão ou de abrigo. Um peso que some dos ombros. Não é a planta baixa que provoca isso, tampouco o sistema estrutural. É o espaço agindo diretamente sobre o corpo e é esse fenômeno que está no centro do que hoje se chama de arquitetura sensorial.
O conceito não é novo, mas ganhou vocabulário teórico preciso a partir de Juhani Pallasmaa, arquiteto e teórico finlandês que, em “Os Olhos da Pele: A Arquitetura e os Sentidos” (2011), formulou a crítica mais articulada à hegemonia visual que dominou a arquitetura moderna. Para Pallasmaa, toda experiência comovente com a arquitetura é multissensorial: espaço, matéria e escala são medidos igualmente pelos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos. A arquitetura reforça a experiência existencial, a sensação de pertencer ao mundo — e essa é essencialmente uma experiência de identidade pessoal.
O diagnóstico de Pallasmaa era direto. Ao longo da história moderna, projetou-se para ser fotografado, construiu-se para as revistas, e esqueceu-se que a arquitetura, antes de qualquer outra coisa, é vivida pelo corpo inteiro.
Os mestres da atmosfera
Ninguém traduziu esse princípio em obra construída com mais radicalidade do que o suíço Peter Zumthor. Em “Atmosferas” (2006), ele desenvolveu a ideia de que a arquitetura não é um sistema de soluções funcionais, mas uma arte de criar ambiências — experiências que o corpo capta antes que a mente processe. “Qualidade arquitetônica só pode significar que sou tocado por uma obra. Entro num edifício, vejo um espaço e transmite-se uma atmosfera e, numa fração de segundo, sinto o que é”, declarou.
Nas Termas de Vals (1996), na Suíça, Zumthor utilizou a pedra local de quartzito não apenas como escolha estética, mas como elemento de memória, temperatura e tato. O barulho abafado da água, o vapor que difusa a visão, o frio da pedra contra a palma da mão; tudo deliberadamente composto como uma experiência corporal completa. Nenhum render consegue reproduzir isso.
Antes de Zumthor, Louis Kahn já havia elevado a luz a um estatuto filosófico na arquitetura. Para ele, a luz não era elemento técnico ou compositivo: era a matéria espiritual do espaço. Nos projetos de Kahn, a luz não ilumina. Ela revela. É um agente sensorial de primeira ordem, capaz de transformar a matéria bruta em presença. Le Corbusier, por sua vez, apesar da herança racionalista que frequentemente obscurece seu lado sensível, foi o responsável por uma das obras mais emocionalmente perturbadoras do século XX: a Capela de Ronchamp (1955), em que a luz atravessa vãos assimétricos de paredes espessas de um jeito que nenhuma fotografia consegue capturar.
O americano Steven Holl foi além ao sistematizar o conceito de “domínio háptico” da arquitetura — o reino do toque. Para Holl, superfícies que convidam à mão, texturas que informam ao dedilhado e temperaturas que o corpo percebe antes que o cérebro registre são elementos projetuais tão legítimos quanto qualquer linha no CAD. Uma arquitetura que ignora o tato é, para ele, uma arquitetura incompleta.

Do manifesto ao mercado
Se a arquitetura sensorial encontrou sua voz teórica nos grandes mestres europeus, ela vem encontrando aplicação prática também no universo comercial e de forma cada vez mais estratégica. Um exemplo recente é o stand desenvolvido pela Pon.to Arquitetura para a Berneck na Expo Revestir 2026, dedicado à apresentação da Coleção Legado 2026/2027.
O projeto partiu de uma premissa clara, que é transformar o espaço expositivo em narrativa arquitetônica, materializando a trajetória de uma marca com mais de 70 anos de relação com a madeira. “A proposta buscou apresentar a nova coleção como um olhar para o futuro, conectando memória, materialidade e inovação em uma experiência imersiva para os visitantes”, explica Isabela Baracat, sócia-fundadora da Pon.to Arquitetura.
A madeira aparece no projeto em diferentes aplicações, escalas e composições; não apenas como revestimento, mas como linguagem e identidade. O espaço foi desenhado como um percurso, incentivando o visitante a percorrer a história da marca enquanto descobre os lançamentos. É arquitetura a serviço do branding, mas com rigor sensorial genuíno.
Baracat aponta que esse tipo de abordagem responde diretamente às transformações no comportamento do consumidor. “Hoje, a decisão de compra vai além de atributos funcionais ou estéticos. O público passa a valorizar experiências que carregam significado, que revelam processos e que evidenciam a origem dos materiais.” Em um cenário de saturação de estímulos visuais, a autenticidade, traduzida em espaço, matéria e atmosfera, emerge como diferencial estratégico.
O corpo como bússola

O que une Pallasmaa, Zumthor, Kahn e o projeto da Pon.to para a Berneck é uma mesma convicção: o corpo humano é a medida mais honesta da arquitetura. Não o render. Não a planta. Não a fachada em perspectiva. A pergunta que deveria guiar cada projeto é menos “como este espaço vai parecer na fotografia?” e mais “como este espaço vai cheirar em dia de chuva? Qual o som dos passos no piso escolhido? A luz da tarde, nesta orientação, vai criar sombras que perturbam ou que acolhem?”
São questões que raramente aparecem nos briefings dos clientes, mas que determinam, de forma silenciosa e profunda, se um espaço será habitado com prazer ou apenas tolerado. A diferença entre um cenário e um lugar é exatamente o que se sente ao atravessar uma soleira: se você chegou a algum lugar ou se apenas entrou em alguma coisa.