Por Reinaldo Glioche
É tentador, ao considerar a vida e a carreira de Robert Redford, focar em sua beleza. Durante décadas, ele foi a definição de astro de cinema — os cabelos loiros, o chapéu de caubói em “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, os olhos azuis penetrantes que pareciam conter tanto luz quanto sombra. No entanto, reduzi-lo à aparência é perder de vista a profundidade de sua arte e a amplitude de suas contribuições ao cinema. Ele foi mais que o garoto de ouro de Hollywood: foi um diretor de rara sensibilidade, um ativista de convicções duradouras e o fundador de Sundance, festival que remodelou o cinema americano. Redford, que morreu aos 89 anos, deixa como legado não apenas interpretações inesquecíveis, mas uma visão que ampliou o que o cinema pode significar.
Se há um fio condutor na atuação de Redford, é a sutileza de seu ofício — o que se poderia chamar de sua arte da contenção. Basta observar sua interpretação em “Todos os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula. Como Bob Woodward, o repórter do Washington Post que desvendou Watergate, Redford protagoniza uma das grandes cenas de telefone da história do cinema. Em um plano-sequência de cinco minutos, a câmera se fecha lentamente em seu rosto enquanto ele escuta, processa e reage. Não é o que ele diz que importa, mas como ouve. O menor lampejo de gratidão quando uma fonte revela algo crucial transmite mais do que qualquer linha de diálogo poderia. Em suas mãos, menos era sempre mais.
Esse instinto pela contenção reaparece em “Três Dias do Condor” (1975), de Sydney Pollack. Como um analista da CIA cujo escritório é dizimado, Redford transmite confusão, medo e uma determinação crescente em outra ligação telefônica, desta vez em uma cabine apertada. Ao ser perguntado se estava “abalado”, sua resposta vacilante — “Abalado?… Não” — revela tanto a descrença pela própria sobrevivência quanto a firme decisão de lutar para permanecer vivo. Poucos atores equilibraram tanta força bruta e inquietação existencial.
Essas performances exemplificam por que Redford se destacou de seus contemporâneos. Hoffman, Pacino e De Niro encarnavam os desajustados da América em colapso. Redford, em contraste, representava homens que pareciam pertencer — os belos, os bem-posicionados —, mas que, em momentos de crise, revelavam as fraturas sob a superfície. Seus personagens espelhavam a inquietação de um país em desintegração nos anos 1970: homens que sorriam sob o sol, mas carregavam medo, perda e desconfiança no olhar.

Essa dualidade impulsionava “O Candidato” (1972), sátira de Michael Ritchie sobre a política americana. Como Bill McKay, Redford interpreta um idealista lentamente corroído pelas absurdidades da campanha eleitoral. Um momento em estúdio, quando McKay cai na risada durante um ensaio, soa tão natural que parece improviso. Mas sob a leveza há algo sombrio: a percepção de que a política havia se tornado espetáculo, esvaziando até mesmo o candidato mais íntegro.
O que torna Redford extraordinário é que sua complexidade em cena era refletida por seus compromissos fora dela. Homem de convicções políticas firmes, foi defensor do meio ambiente, dos direitos indígenas, da pauta LGBTQ+ e, acima de tudo, do cinema independente. Com o dinheiro de “Butch Cassidy” e outros sucessos, comprou terras em Utah e fundou, em 1981, o Sundance Institute. O que começou como oficinas para jovens cineastas evoluiu para o Sundance Film Festival, a mais importante vitrine do cinema independente nos EUA. Quentin Tarantino, Paul Thomas Anderson, Lulu Wang, Taika Waititi, Ryan Coogler — gerações de diretores devem seus primeiros passos ao ecossistema criado por Redford. Dessa forma, ele não apenas estrelou filmes, mas ajudou a construir uma alternativa a Hollywood.
Sua carreira como diretor refletia essa mesma consciência social. Sua estreia, “Gente como a Gente” (1980), um retrato devastador do luto, venceu o Oscar de Melhor Filme. Depois vieram obras como “A Luta pela Terra” (1988) e “Quiz Show – A Verdade dos Bastidores” (1994), que examinaram questões ambientais e a corrupção midiática. Mesmo ao abordar grandes temas, sua direção permanecia íntima, focada em indivíduos diante de forças maiores que eles. Esse equilíbrio entre o pessoal e o político também definia sua vida: foi ativista antes de ser moda, combatendo uma usina de carvão em Utah nos anos 1970 e defendendo causas progressistas, mesmo quando isso podia prejudicar sua carreira.
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Apesar disso, nunca abandonou totalmente a atuação. Escolheu papéis seletivamente, muitas vezes em parceria com diretores de confiança, como Pollack, ou apoiando talentos emergentes, como David Lowery. Talvez seu maior papel na maturidade tenha sido em “Até o Fim” (2013), de J.C. Chandor. Sozinho em cena como um marinheiro envelhecido à deriva no mar, Redford entregou uma performance quase sem palavras que condensava sua essência de ator. Cada gesto — consertar o barco, olhar as estrelas, beber uísque após escapar da morte — carregava um peso monumental. Aos 77 anos, encarnava tanto o charme rústico da juventude quanto a resiliência cansada da idade. Como o pescador de Hemingway, lutava contra probabilidades impossíveis, seu silêncio mais eloquente que qualquer monólogo.

Robert Redford foi, em todos os sentidos, um artista completo. O astro carismático que fez o público acreditar na decência, mesmo quando interpretava homens em dilemas morais. O visionário que construiu Sundance, dando voz a cineastas sem espaço. O diretor que abordou temas espinhosos. O ativista que falou quando o silêncio seria mais cômodo.
Sim, ele era incrivelmente belo. Mas a beleza que importava estava em sua capacidade de mostrar, sob a superfície dourada, as turbulências e ternuras de ser humano. Sua vida foi de uma força contida: menos era sempre mais, e o que ofereceu ao cinema foi incalculável.
Ao recordá-lo, não é apenas a imagem dele saltando de um penhasco com Paul Newman ou desvendando Watergate ao telefone que fica. É a convicção silenciosa de que arte, política e humanidade são indissociáveis. Redford acreditava no cinema como espelho de nossas lutas e farol de nossas melhores versões. Assim, garantiu para si um legado que vai além de astro de cinema: o de guardião da alma do cinema.