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A banalidade do mal e mulheres complicadas em destaque na primeira semana de Cannes

Entre os filmes apresentados estão os novos de Jonathan Glazer, Nuri Bilge Ceylan, Martin Scorsese e Todd Haynes

Por Mariane Morisawa

É comum a curadoria do Festival de Cannes escolher para a competição filmes que conversam entre si, de alguma(s) maneira(s). Se os primeiros longas desta 76ª edição giravam em torno da juventude, dá para dizer que as obras apresentadas nos últimos dias falam de como as pessoas convivem com as suas más ações, do padrão desigual pelo qual as mulheres são julgadas, de mulheres complicadas, de adultos que abusam de seu poder.

Cena de “About Dry Grasses” | Foto: Divulgação/Cannes

O turco Nuri Bilge Ceylan, vencedor da Palma de Ouro com “Sono de Inverno” (2014), do Grande Prêmio do Júri com “Longínquo” (2003) e “Era uma Vez na Anatólia” (2011) e do prêmio de direção com “Três Macacos” (2008), está de volta a Cannes com “About Dry Grasses“, um estudo de paisagem e personagem. Samet (Deniz Celiloglu) é um professor que acredita estar terminando seu serviço obrigatório no leste da Turquia. Seu sonho é ser transferido para Istambul. Ele se orgulha de ter uma relação amistosa com seus alunos, sendo a adolescente Sevim (Ece Bagci) sua favorita. Aos poucos, porém, o filme vai revelando as faces mais sombrias do personagem, acusado pela garota de conduta inapropriada. Mas sem oferecer respostas fáceis. Samet é contraditório, odioso, arrogante. Ele não consegue enxergar em nenhum momento sua responsabilidade pelas coisas que acontecem em sua vida. Por isso, é um personagem difícil de gostar, mas, ainda assim, completamente fascinante.

É o mesmo caso de Killers of the Flower Moon, de Martin Scorsese, que não está na competição, mas estaria se dependesse do diretor artístico do festival Thierry Frémaux. Ernest, o personagem de Leonardo DiCaprio, é fraco, covarde, burro, contraditório. Não consegue perceber o mal que está fazendo, nem mesmo amando, como diz, sua mulher Molly (Lily Gladstone). Já o William Hale de Robert De Niro se convence de que está ajudando os indígenas Osage, ricos depois de descobrir petróleo em suas terras. Como o ator disse na entrevista coletiva, é um longa sobre a banalidade do mal.

Ela está mais do que em evidência em “The Zone of Interest“, de Jonathan Glazer, que despontou como favorito a prêmios na primeira semana do festival. No filme, Hedwig (Sandra Hüller) é uma dona de casa feliz com seu jardim, com seus afazeres domésticos, com os fins de semana passados à beira do rio com sua família. Ela é mulher de Rudolf Höss (Christian Friedel), comandante de Auschwitz. A casa onde eles moram ficam logo ao lado do muro do campo de extermínio. Mas, para os Höss, não há nada de anormal nisso. Glazer filma tudo à distância, com frieza, sem glamurização, como deve ser. E traz uma visão nova e chocante de um dos eventos mais abordados pelo cinema.

Cena de “The Zone of Interest” | Foto: Divulgação/Cannes

Hüller, conhecida por “Toni Erdmann“, é a atriz desta edição, participando também de “Anatomy of a Fall“, de Justine Triet. Sua personagem, Sandra, é uma escritora alemã que precisa provar sua inocência ao ser acusada de assassinar o marido. É um filme de tribunal sem os clichês hollywoodianos, destrinchando um casamento. Fica evidente como ela é julgada de maneira diferente por ser mulher, seja culpada ou não. O longa se delicia em sua ambiguidade e na recusa de oferecer respostas fáceis, oferecendo um retrato de uma mulher cheia de complexidade.

Também é o caso de “May December“, de Todd Haynes. O cineasta evita condenar sua personagem, Gracie (Julianne Moore), que viveu uma relação escandalosa – e, diga-se, criminosa – com um garoto de 13 anos, quando ela tinha 36. Aquele adolescente virou seu marido Joe (Charles Melton), pai de seus três filhos. O ninho está prestes a ficar vazio com a partida dos gêmeos para a universidade quando chega a atriz Elizabeth (Natalie Portman), que faz pesquisa para interpretar Gracie em um filme. Ela própria é cheia de complicações. Haynes faz um estudo da busca pela identidade, das performances que montamos para os outros e das mentiras que contamos a nós mesmos para justificar nossas mais terríveis ações.

As mulheres também estão no centro de “Four Daughters“, da tunisiana Kaouther Ben Hania, e Firebrand, produção em inglês do brasileiro Karim Aïnouz. O primeiro mistura ficção e documentário para contar a história de Olfa, mãe de quatro filhas. Duas delas desaparecem. É um filme sobre a sororidade entre mulheres nas circunstâncias mais difíceis. Também é o caso do drama de época de Aïnouz, que foca em Katherine Parr (Alicia Vikander). Ela precisa ser hábil para não ter os mesmos destinos das cinco mulheres anteriores do abusivo e tirânico rei Henrique 8º, de quem ele se divorciou, mandou decapitar ou morreu no parto.

Fechando essa primeira semana, “Club Zero“, da austríaca Jessica Hausner, também tem um professor como protagonista. Só que, diferentemente de “Monster”, de Hirokazu Kore-eda, e de “About Dry Grasses“, de Nuri Bilge Ceylan, aqui se trata de uma mulher, Srta. Novak (Mia Wasikowska), que chega a uma escola de elite para ensinar alimentação consciente para alguns alunos. Na sátira, ela propõe que os adolescentes parem de comer. É difícil de imaginar que o presidente do júri Ruben Östlund não tenha certo apreço pelo longa com uma cena em que se come vômito, mas a verdade é que, como em seu “Triângulo da Tristeza“, ganhador da Palma de Ouro no ano passado, “Club Zero” é raso e de alvo pouco claro.

Cena de “Club Zero” | Foto: Divulgação/Cannes

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