Redação Culturize-se
O Queens of the Stone Age sempre encontrou na tensão entre peso e melodia uma de suas principais marcas. Em “Perfecth”, nono álbum de estúdio, lançado na última semana, Josh Homme e seus companheiros parecem interessados em explorar o que existe além dessa fórmula. O resultado é um disco de nove faixas, com aproximadamente 36 minutos, que privilegia atmosferas, experimentações e uma abordagem mais introspectiva. Não se trata de uma ruptura com o passado, mas de uma ampliação dos horizontes de uma banda que já não parece interessada em provar sua força por meio de guitarras estridentes.
O título, uma brincadeira com a palavra inglesa perfect (perfeito), sintetiza a proposta. “Nada neste mundo é perfeito, mas tudo parece ser ‘perfecth'”, explicou Homme. A ideia, segundo o vocalista, tem uma dimensão coletiva e outra mais melancólica: “Esse título é engraçado quando você está em um grupo, mas não é tão engraçado quando está sozinho”. As nove músicas percorrem diferentes manifestações do amor, da amizade e dos vínculos afetivos, incluindo suas contradições, ausências e fragilidades.

Em entrevista à revista NME, Homme definiu o momento como o terceiro ato da trajetória do Queens of the Stone Age. Se a primeira fase foi marcada pela descoberta de uma identidade musical e a segunda pela disposição de desafiar limites e provocar, a atual seria uma busca por alguma forma de paz. “Não existe perfeição, e está tudo bem”, resumiu o músico ao explicar a filosofia que atravessa o álbum.
A experiência de Alive in the Catacombs, registro audiovisual de uma apresentação acústica realizada nas catacumbas de Paris, em 2024, também ajudou a redefinir a relação do grupo com suas próprias composições. O contato com arranjos despojados revelou possibilidades que antes permaneciam escondidas sob as camadas de distorção. Em vez de simplesmente retornar ao rock pesado, a banda decidiu incorporar essa descoberta à sua linguagem.
Homme e o baixista Michael Shuman dividiram a produção do disco. Segundo o vocalista, as gravações realizadas entre Nova Orleans e Los Angeles resultaram em músicas bastante diferentes entre si. A intenção foi justamente preservar essa diversidade, como se o álbum fosse uma espécie de mixtape, costurada por temas e sentimentos comuns.
A abertura com “It’s Only Love” estabelece o tom menos previsível do trabalho. A faixa combina referências balcânicas e uma atmosfera fatalista, afastando-se do rock desértico que consagrou o grupo. Na sequência, “Insignificant Other” aposta em uma sonoridade sinuosa, com elementos de soul, para falar sobre a experiência de perder alguém que ocupava um lugar central na vida. Ao apresentar a música, Homme a descreveu como uma reflexão sobre a distância e o desaparecimento: “Como alguém pode ser o seu mundo inteiro e simplesmente desaparecer”.
“Where The Goth Girls At?” recupera um pouco da irreverência e da energia mais punk do Queens. A guitarra ganha protagonismo, acompanhada por uma linha de baixo encorpada. Shuman contou que buscou uma sonoridade associada à sua adolescência, utilizando equipamentos que remetem ao rock alternativo mais visceral. Já “Mono” segue caminho oposto. Econômica e sombria, a composição trabalha com desorientação e desconforto, como se traduzisse musicalmente um estado de espírito assombrado.
“From The Cliff” oferece uma pausa com elementos de folk, enquanto “Sunday” merece atenção especial. A música foi originalmente composta durante as sessões de “Post Pop Depression” (2016), álbum colaborativo de Homme com Iggy Pop. Agora, ganha nova interpretação, com referências ao art rock de David Bowie e à soul music dos anos 1970. Na entrevista à NME, Homme explicou que quase guardou a composição para si, mas decidiu compartilhá-la com Iggy. Sobre a nova versão, brincou que o antigo parceiro “odeia” o resultado, antes de esclarecer que teve a aprovação dele.
“Easy Street”, um dos singles de apresentação, aposta em uma leveza enganosa, com arranjo acústico e melodia acessível. A faixa carrega uma dose de humor e o desejo de encontrar um lugar de tranquilidade para compartilhar com as pessoas queridas. Em “Phantom Limb”, a banda volta a explorar territórios mais atmosféricos, encontrando beleza na sensação de estar à deriva. O encerramento com “Run Away From The Mob” recupera gradualmente a força das guitarras, especialmente no trecho final, quando o disco parece reencontrar a energia mais característica do grupo.

A proximidade com a morte também atravessa o álbum. Depois de enfrentar problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de câncer em 2022, Homme parece menos interessado na postura de invulnerabilidade que marcou parte de sua trajetória. Em entrevista à Apple Music, afirmou: “Eu sempre tentei fazer boa arte, mas às vezes isso foi uma guerra. Agora não é”.
A mudança não significa acomodação. Como resumiu o próprio Homme, a consistência do Queens está justamente em sua volatilidade. “Perfecth” confirma essa disposição para experimentar.