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Palavra do ano, "mogging" expressa competição desenfreada pela beleza

Por Reinaldo Glioche

Todo dicionário que elege uma palavra do ano faz mais do que premiar um verbete da moda. Faz um diagnóstico. A palavra escolhida não é a mais bonita nem a mais útil: é aquela que, naquele ano, melhor resume o que uma sociedade andou querendo dizer e não tinha como. Por isso a decisão do Collins de coroar “mogging” em 2026 merece ser lida como o que ela é, um retrato, e não como uma curiosidade de rede social.

O termo nasceu nas comunidades de looksmaxxing, aquelas que transformaram a otimização da própria aparência num projeto de engenharia pessoal. “Mogging” descreve o ato de ofuscar alguém, de superar outra pessoa, e quase sempre essa superação é medida na aparência. Alguém “mogga” outro quando, ao lado dele, o apaga. Não é um elogio à beleza de ninguém. É a afirmação de que, numa comparação direta, um corpo venceu o outro.

Há algo de honesto nessa palavra, e convém reconhecer antes de qualquer juízo. Ela não finge. Toda geração sempre comparou aparências, sempre hierarquizou rostos e corpos em silêncio, nos corredores da escola e nas fotos de formatura. O que “mogging” faz é dar nome ao que antes era constrangedor admitir. E nomear uma coisa é o primeiro passo para poder falar dela sem rodeios.

Mas é justamente aí que o retrato incomoda. Porque a palavra não descreve apenas uma comparação, descreve uma competição. No vocabulário do “mogging” não existe o olhar que admira. Existe o olhar que disputa. A beleza do outro deixa de ser algo a se apreciar e passa a ser uma ameaça a se medir, um placar em que alguém necessariamente perde. A aparência vira esporte, e todo esporte tem vencedor e derrotado.

O Collins não escolheu “mogging” sozinha. O termo entrou numa lista de dez palavras selecionadas como as que resumem o vocabulário da geração mais jovem. Essa companhia importa tanto quanto a eleita, porque uma palavra isolada é anedota e um conjunto é tendência. Quando o repertório de uma geração passa a ser catalogado como objeto de estudo pelo dicionário, o recado é que surgiu ali uma forma própria de organizar o mundo. Uma gramática nova.

E a gramática dessa geração, ao menos no que o Collins captou, é competitiva por estrutura. Não se trata de jovens mais vaidosos do que os de antes. Trata-se de uma vaidade que encontrou escala, régua e plateia. O espelho, que era um instrumento privado, virou um ringue público, com seguidores assistindo. Quem cresceu rolando feeds aprendeu cedo que o rosto não é só um rosto. É um ativo em disputa permanente contra todos os outros rostos da tela.

Vale resistir à tentação de tratar isso como decadência moral da juventude, que é o atalho preguiçoso de sempre. A questão não é que a Gen Z seja fútil. É que ela herdou um ambiente em que a aparência foi convertida em métrica, e nenhuma geração escolhe o ambiente em que aprende a se olhar. “Mogging” é a palavra que faltava para descrever uma competição que já estava rodando. O Collins apenas entregou o troféu.

O incômodo que a escolha provoca não vem do neologismo. Vem do que ele revela sobre o preço de viver sob avaliação constante. Quando a palavra do ano é um verbo que significa derrotar o outro pela cara, o problema não está no dicionário. Está no mundo que precisou inventá-la.

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