Redação Culturize-se
A literatura brasileira vem ampliando sua presença no mercado internacional, mas transformar o interesse de editoras estrangeiras em livros publicados e leitores conquistados continua sendo um desafio. Os números recentes indicam uma mudança importante nesse cenário: no primeiro semestre de 2026, empresas brasileiras movimentaram aproximadamente US$ 8 milhões em negócios internacionais, dos quais 44,65% corresponderam à comercialização de direitos autorais. Em 2025, essa participação havia sido de 17,34%.
O crescimento sinaliza uma transformação no perfil das exportações editoriais. Mais do que vender livros físicos, o Brasil começa a ampliar sua capacidade de inserir autores e histórias em catálogos estrangeiros. O desempenho, entretanto, não significa que exista uma demanda automática pela literatura nacional. Para a agente literária Nicole Witt, que representa escritores brasileiros em negociações internacionais, o interesse dos compradores está concentrado, antes de tudo, na capacidade de uma obra de conquistar leitores.
“Num princípio, não há um interesse per se pela literatura brasileira. Interessam boas histórias que vendem”, afirma em entrevista à DW. Segundo ela, determinados temas ajudam a despertar a atenção de editoras estrangeiras, especialmente narrativas relacionadas à Amazônia, às culturas indígenas, ao racismo, à identidade sexual e à condição feminina. Entre os autores que dialogam com essas questões estão Ailton Krenak, Carola Saavedra, Paulo Scott, Patrícia Melo e Tatiana Salem Levy.
A identidade nacional pode funcionar como um diferencial comercial. “Para vender um livro brasileiro, normalmente ajuda que conte com um elemento que tenha a ver com o país de procedência do autor ou da autora, como para ‘justificar’ o esforço adicional de traduzir do português”, explica Witt. Isso não significa, porém, que o mercado internacional esteja limitado a representações tradicionais ou estereotipadas do país.

Um exemplo das particularidades desse percurso é “A Pediatra”, romance de Andréa del Fuego que ultrapassou 90 mil exemplares vendidos no Brasil. Apesar do sucesso nacional, a negociação internacional encontrou resistência. Alguns editores consideravam a obra muito diferente de “Os Malaquias”, livro anterior da autora, já publicado na Alemanha e na Itália. O humor ácido do romance também era visto como possível obstáculo à tradução cultural.
A situação mudou quando a tradutora Nina Perrotta apresentou um trecho da obra no PEN Presents, programa de promoção da literatura traduzida. A iniciativa despertou o interesse da britânica Faber and Faber, que adquiriu os direitos em inglês. O episódio ilustra a importância de tradutores, agentes e editoras na construção de oportunidades internacionais.
Os clássicos também contribuem para essa circulação. Em janeiro de 2027, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, ganhará novas traduções para inglês e alemão. Já a série infantojuvenil “Pilar”, de Flávia Lins e Silva, ultrapassou 300 mil exemplares vendidos em língua espanhola.
A expansão comercial aparece nos resultados do Brazilian Publishers, programa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a ApexBrasil. No primeiro semestre, a Feira de Bolonha movimentou US$ 5,6 milhões, Londres registrou US$ 2,29 milhões e Bogotá, aproximadamente US$ 200 mil. Em Istambul, foram US$ 170 mil. Os valores incluem vendas de livros físicos e diferentes modalidades de negócios editoriais.
Para a presidente da CBL, Sevani Matos, a diversidade da produção nacional é um dos principais atrativos. Ela destaca que a internacionalização depende de investimentos contínuos, relacionamento comercial e iniciativas de incentivo à tradução. A barreira linguística permanece central, assim como a necessidade de ampliar programas de bolsas e materiais de apresentação em outros idiomas.
A escritora e especialista Michi Strausfeld acrescenta uma dimensão cultural ao debate: “A literatura pode ser a ponte ideal para que conversemos em igualdade de condições. E essa possibilidade não é aproveitada”.
O desafio brasileiro, portanto, vai além de ampliar contratos e cifras. Trata-se de fazer com que a diversidade de sua produção literária encontre espaço nas prateleiras estrangeiras e, sobretudo, alcance leitores que ainda conhecem pouco das histórias produzidas no país.