Por Reinaldo Glioche
Três álbuns impecáveis seguidos é uma façanha que pouquíssimos artistas conquistam. Olivia Rodrigo e seu produtor e coautor Dan Nigro acabam de fazer exatamente isso com “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love”, disco que não apenas confirma o talento já exibido em “Sour” e “Guts”, mas o expande em direções que nenhum dos dois trabalhos anteriores deixava prever com clareza. É o álbum de uma artista que olhou para o próprio sucesso, decidiu que ele não era suficiente como molde, e partiu em busca de algo maior.
A primeira surpresa chega logo nos minutos iniciais: o pop-punk que marcou os momentos mais furiosos dos discos anteriores simplesmente desapareceu. Em seu lugar, surge uma paleta sonora generosamente inspirada nos anos 1980 — não o lado cor-de-rosa e descartável da década, mas seu núcleo mais rico e duradouro: o new wave, o post-punk, o rock universitário, o new romantic. Synths monumentais, caixas de ritmo, guitarras cristalinas. Se você cresceu ouvindo The Cure, New Order ou The Bangles, “You Seem Pretty Sad…” vai soar como um reencontro cuidadosamente orquestrado com velhos amigos. Mas sem jamais soar como pastiche.

A ligação com Robert Smith merece menção à parte. Rodrigo já havia declarado amor público à banda com o single “Drop Dead”, no qual canta que finalmente entendeu o que “Just Like Heaven” significa. Depois veio o segundo single, chamado simplesmente de “The Cure”. A surpresa reservada para o álbum completo, porém, é a que mais impacta: “What’s Wrong With Me” traz vocais do próprio Smith, e “Maggots for Brains” — uma das faixas mais brilhantes do disco, híbrido jocoso entre “Friday I’m in Love” e “Dancing With Myself” — soa como se o Cure tivesse realmente habitado o estúdio. É uma homenagem que foi longe o suficiente para virar colaboração e, depois, fusão.
Mas o disco é muito mais do que um exercício de referências bem-executadas. Nigro, aqui no seu trabalho mais sofisticado até hoje, costura texturas que surpreendem a cada faixa: baterias programadas que transitam suavemente para instrumentos ao vivo em “Purple”, um synth que irrompe como um susto bem-vindo em “Expectations”, um toque de piano sentimental encerrando “Maggots for Brains”. E Rodrigo responde à altura, ajustando sua abordagem vocal e trazendo contenção e sutileza nas estrofes para tornar os momentos de plena potência nos refrões ainda mais devastadores.
Estruturalmente, o álbum funciona como uma novela em dois atos. As primeiras sete faixas acompanham a vertigem de um amor nascente com uma intensidade quase febril — porque, para Rodrigo, apaixonar-se tem sintomas físicos. “Drop Dead” a suspende num tableau de êxtase puro; “Stupid Song” começa em piano melancólico e explode numa corrida eufórica; “U + Me = ♡” entrega algo que o mundo esperava sem saber: Olivia Rodrigo fazendo jangle pop. O ponto de virada emocional é “Purple”, uma co-produção com Jim-E Stack que captura com precisão desconcertante o momento em que a obsessão romântica se torna tão total que os limites entre dois indivíduos se dissolvem. “Eu derreto com você / você é vermelho e eu sou azul / agora vejo o mundo em roxo”, ela canta antes de sussurrar: “Melt with you till I just feel sad.”

A segunda metade do disco acompanha o desmoronamento lento e quase anticlimático dessa relação, a angústia que precede a separação, a solidão disfarçada de contentamento. É aqui que a escrita confessional de Rodrigo brilha com maior maturidade: não há rancor espetacular, não há catarse explosiva como em “good 4 u”. Há algo mais difícil de alcançar, que é a honestidade quieta de quem percebe que nunca foi tão feliz quanto pensava.
No encerramento de “Guts”, Rodrigo perguntou quando iria parar de ser excelente para a sua idade e simplesmente começar a ser boa. “You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love” é a resposta. Ela chegou lá.