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A IA chega a Wall Street sob risco e expectativas sem precedentes

Redação Culturize-se

Nesta sexta (12), pela primeira vez na história, uma empresa de foguetes estreou em Wall Street valendo mais do que qualquer fabricante de automóveis, banco ou varejista do planeta. A SpaceX abriu seu capital na Nasdaq sob o ticker SPCX com uma avaliação de US$ 1,77 trilhão — a maior abertura de capital da história dos mercados de capitais, levantando US$ 75 bilhões em uma única oferta. Sete dias antes, a Anthropic havia protocolado confidencialmente seu S-1 junto à SEC. Dois dias depois, a OpenAI fez o mesmo. O mundo da tecnologia jamais havia testemunhado tamanha concentração de apostas trilionárias em janela tão estreita de tempo.

Para entender o que está acontecendo, é preciso recuar no calendário e no mapa conceitual da indústria. A história dos grandes IPOs tecnológicos é, em essência, a história de apostas civilizacionais realizadas no mercado aberto. A abertura de capital da Netscape, em 1995, inaugurou a era da internet comercial com uma oferta que valia menos de US$ 1 bilhão, mas que sinalizou ao mundo que a rede seria o próximo sistema nervoso da economia global. Em 2004, o IPO do Google, então avaliado em US$ 23 bilhões, confirmou que a publicidade digital destroçaria os modelos de negócio da mídia tradicional. Em 2012, o Facebook chegou a Wall Street valendo US$ 104 bilhões em meio a ceticismo sobre a monetização mobile. Um ceticismo que se revelaria profundamente equivocado.

Foto: Montagem sobre reprodução

Cada uma dessas aberturas de capital não era apenas um evento financeiro. Era uma declaração de que uma tecnologia havia cruzado o limiar entre curiosidade de laboratório e infraestrutura de civilização. O que se passa em 2026 obedece à mesma lógica, porém em escala sem precedente histórico.

A SpaceX como modelo e espelho

A SpaceX demorou 24 anos para chegar ao mercado público. Fundada por Elon Musk em 2002 com a ambição declarada de colonizar Marte, a empresa transformou uma indústria secular marcada por contratos governamentais e cronogramas de décadas. A reutilização de foguetes — ideia considerada fantasiosa por engenheiros experientes na NASA — tornou-se realidade operacional. O Starlink, serviço de internet via satélite que começou a operar em 2019, converteu-se no motor de receita que justificou a demora da chegada a Wall Street: em 2025, a empresa registrou US$ 18,67 bilhões em receita consolidada.

Leia também: Elon Musk – o homem, o mito e as polêmicas

O S-1 da SpaceX, protocolado publicamente em 20 de maio de 2026, revelou ao mercado uma estrutura de três segmentos com perfis financeiros radicalmente distintos: o negócio espacial tradicional, a conectividade via Starlink e o segmento de inteligência artificial, incorporado após a fusão all-stock com a xAI de Musk em fevereiro de 2026. A fusão transformou uma empresa lucrativa — em 2024, a SpaceX registrou lucro líquido de US$ 791 milhões — em uma empresa deficitária, com prejuízo de US$ 4,94 bilhões em 2025. Os investidores, no entanto, pagaram um prêmio de futuro: a demanda durante o roadshow superou US$ 250 bilhões para uma oferta de US$ 75 bilhões, uma sobredemanda de quase 3,5 vezes.

A mensagem implícita no prospecto da SpaceX serve de moldura para compreender o que vem a seguir com OpenAI e Anthropic: o mercado público está disposto a financiar perdas presentes em troca de promessas de dominância futura, desde que o ativo tecnológico seja percebido como infraestrutura insubstituível. Não se compra uma ação da SpaceX. Compra-se uma tese de que o espaço e a inteligência artificial serão os dois maiores mercados da segunda metade do século XXI.

A corrida das IAs ao pregão

Se a SpaceX levou duas décadas e meia para abrir capital, a OpenAI e a Anthropic estão fazendo o caminho em velocidade geológica inversa. A OpenAI foi fundada em 2015 como uma organização sem fins lucrativos com a missão de desenvolver inteligência artificial geral em benefício da humanidade. Onze anos depois, protocolou um S-1 confidencial junto à SEC mirando avaliação de US$ 1 trilhão — quatro vezes o valor pelo qual o Alibaba listou em 2014, o maior IPO de tecnologia até então.

Os números da empresa são, simultaneamente, deslumbrantes e perturbadores. A receita saltou de US$ 2 bilhões anualizados no final de 2023 para aproximadamente US$ 25 bilhões em fevereiro de 2026 — uma expansão de 12,5 vezes em pouco mais de dois anos, ritmo que o Google levou mais de uma década para igualar. Mas o outro lado do balanço corrói essa euforia: a OpenAI queimou cerca de US$ 8 bilhões em caixa em 2025 e projeta queimar US$ 27 bilhões em 2026, alimentada por compromissos bilionários com infraestrutura de computação, incluindo o projeto Stargate, cujo investimento planejado supera US$ 500 bilhões ao longo de três anos. A empresa perde mais de US$ 1,20 para cada US$ 1,00 que ganha.

A Anthropic, criada em 2021 por ex-funcionários da própria OpenAI liderados por Dario e Daniela Amodei, apresentou a SEC com seu S-1 confidencial em 1º de junho de 2026 — uma semana antes da rival — e o fez com números que desafiam qualquer modelo de avaliação convencional. A empresa atingiu taxa de receita anualizada de US$ 47 bilhões em maio de 2026, partindo de US$ 9 bilhões em janeiro do mesmo ano: um crescimento de cinco vezes em cinco meses. Uma rodada Série H de US$ 65 bilhões, concluída quatro dias antes do protocolo do S-1, elevou a avaliação da empresa a US$ 965 bilhões — tornando a Anthropic, por alguns dias, mais valiosa que a OpenAI. A estreia acima de US$ 1 trilhão é hoje o cenário-base dos bancos que coordenam a oferta, Goldman Sachs e JPMorgan à frente.

O que Wall Street está realmente comprando

Há uma tensão estrutural no coração de todas essas ofertas que os prospectores de rendimento não podem ignorar. Os grandes IPOs de software que moldaram a indústria na última geração — Salesforce, ServiceNow, Workday — compartilhavam uma propriedade fundamental: quanto mais clientes adquiriam, menores eram os custos marginais de atendê-los. O modelo de negócio tornava-se mais lucrativo conforme crescia.

A inteligência artificial de fronteira parece funcionar ao contrário, pelo menos por enquanto. Cada nova conversa com o ChatGPT ou o Claude consome ciclos de computação que custam dinheiro real. Treinar modelos de nova geração exige clusters de processadores que custam dezenas de bilhões de dólares. A Anthropic firmou acordo de infraestrutura computacional com a própria SpaceX para acessar o supercomputador Colossus em Memphis. A OpenAI comprometeu-se com o Stargate. Ambas as empresas apostam que os custos de inferência cairão dramaticamente à medida que os chips evoluam — e que a monetização por assinatura e por uso corporativo crescerá mais rápido do que as despesas de infraestrutura. É uma aposta plausível, mas ainda não uma certeza demonstrada.

O contexto macroeconômico adiciona outra camada de complexidade. A política monetária do Federal Reserve mantém taxas de juros reais elevadas, o que comprime os múltiplos de valuation para empresas com fluxo de caixa negativo. A um preço de 65 vezes a receita projetada — o múltiplo implícito na avaliação de US$ 830 bilhões da OpenAI contra receita de 2025 —, qualquer desaceleração no crescimento pode produzir colapsos de mercado tão dramáticos quanto as subidas.

A lição que o mercado ainda está aprendendo

A grande abertura de capital da SpaceX oferece um espelho com distorção calculada. A empresa de Musk chegou ao pregão com tecnologia comprovada em operação, receita diversificada e dois décadas de iteração de produto. A OpenAI e a Anthropic chegam num momento em que a corrida ainda é aberta, os custos ainda são explosivos e a regulação ainda é incerta.

Mas a história dos IPOs tecnológicos ensina que o mercado frequentemente precifica o futuro antes que o presente justifique. Quem vendeu o Google em 2004 ou o Amazon em 1997 por considerá-los “caros demais” perdeu as maiores criações de valor do capitalismo moderno. O risco simétrico existe: quem comprou a Pets.com em 2000 ou o WeWork às avaliações de pré-IPO perdeu tudo.

O que parece claro, olhando para o calendário de junho de 2026, é que a indústria da tecnologia atravessa um de seus momentos de acerto de contas com a realidade do mercado público. SpaceX, OpenAI e Anthropic deixam a segurança do capital privado — onde as avaliações são negociadas, não disputadas — e submetem suas teses ao escrutínio implacável de milhões de investidores que votam com dinheiro real todos os dias. É nesse momento que a promessa encontra o balanço, e o futuro encontra o presente. O veredito definitivo ainda está sendo escrito.

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