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Charli xcx e a arte da reinvenção sem concessões

Redação Culturize-se

A lendária atriz francesa Isabelle Huppert declarou recentemente em uma exibição de cinema que sua atuação não depende de outras formas de arte. “Eu poderia ser a mesma atriz sem sair do meu quarto, apenas pela minha imaginação e pensamento”, afirmou. Essa fala ilustra a fronteira fundamental entre a atuação teatral e a estelaridade do universo pop: de um lado, a representação de um personagem externo; do outro, a exposição contínua de uma versão pública do próprio eu. É justamente nesse terreno minado entre persona, exposição e sobrevivência artística que orbita “Music, Fashion, Film”, o aguardado novo álbum de Charli xcx.

O lançamento ocorre imediatamente após o terremoto cultural provocado por “BRAT” (2024). O disco anterior da cantora britânica ultrapassou as barreiras da música pop comercial, transformando-se em um fenômeno global que influenciou desde campanhas políticas norte-americanas até a revisão do influente Dicionário Collins. Diante de tamanha magnitude, a reação habitual da indústria seria a tentativa desesperada de replicar a fórmula e superá-la em escala. Charli xcx, contudo, optou pelo antídoto: desacelerar o ritmo, desarmar as expectativas do público e lançar um projeto visceral de 29 minutos, concebido com a urgência e a espontaneidade de uma mixtape autoral.

Transição estética

Anunciado com a provocação “a pista de dança morreu, então agora estamos fazendo rock”, o álbum gerou reações imediatas e controvérsias entre veteranos da música. Nomes como Courtney Love e Madonna reagiram publicamente à provocação. No entanto, “Music, Fashion, Film” está longe de constituir um abandono sumário do pop eletrônico que consagrou a artista ao longo de mais de uma década. Trata-se, na realidade, de uma recontextualização estética orientada por guitarras distorcidas, mantendo a produção afiada de colaboradores históricos como A.G. Cook e Finn Keane.

A transição para arranjos baseados em instrumentação de garagem e sonoridades reminiscentes do pós-punk dos anos 2000 — com referências evidentes a bandas como The Strokes, Pixies e Garbage — atendeu a uma necessidade de renovação criativa e física. Após uma exaustiva turnê mundial que resultou em lesões no pescoço devido ao impacto das apresentações eletrônicas, a cantora buscou uma abordagem física distinta. A nova estética já foi testada em apresentações intimistas em Londres e Nova York, onde Charli subiu ao palco acompanhada por uma banda compacta de três integrantes, sem sacrificar a energia visceral que caracteriza seus shows.

“Tornar-se entediante é morrer na hora. Desista, renda-se, vá para casa, fique em casa,
acabe com tudo.”

Charli xcx

Ironia, política e a vulnerabilidade da persona pop

Liricamente, o projeto abandona as inseguranças de carreira que pontuavam seus trabalhos anteriores para adotar um tom multifacetado, alternando entre a sátira corrosiva, a gratidão e a vulnerabilidade crua. Na faixa “SS26”, a artista debocha da obsessão contemporânea por uma correção moral inalcançável nas redes sociais, revelando como pautas políticas e a própria ancestralidade indiana são muitas vezes instrumentalizadas como estratégias de assessoria de imprensa. “Se você está na internet, existe essa sensação de que precisa estar do lado certo de todas as conversas. Não basta ser bom, é preciso ser o tipo certo de bom”, explicou a cantora em entrevista recente.

Foto: Romy Gravas

A autoironia atinge o ápice na faixa “Wink Wink”, na qual a artista brinca com a maturidade recém-adquirida e o casamento com o músico George Daniel, sugerindo que a imagem de “boa moça” não passa de uma encenação. Por outro lado, em “I’m Afraid”, a sonoridade conturbada dá espaço para uma das composições mais desprovidas de romantismo sobre o noivado e o medo da transformação pessoal. A busca pelo equilíbrio entre a rebeldia subversiva de suas raízes e a estabilidade da vida adulta perpassa todo o repertório do disco.

A ligação de Charli xcx com o universo cinematográfico expandiu-se drasticamente nos últimos anos. Atuando como atriz, roteirista e compositora para projetos de diretores renomados como Takashi Miike, Greg Araki, Cathy Yan e Emerald Fennell (para quem assinou a trilha sonora do longa “O Morro dos Ventos Uivantes”), a artista encerra o novo álbum com uma colaboração singular: um trecho de áudio do cineasta canadense David Cronenberg, mestre do body horror e inspiração para o álbum “Crash” (2021).

Leia também: Novas fases e reinvenções dominam a música pop

Na faixa de encerramento “No One Lasts Forever”, Cronenberg reflete sobre a efemeridade da arte e da própria existência, ressaltando que, embora certas obras sobrevivam por milênios, os criadores já não estão presentes para vivenciar essa longevidade. “O esquecimento é a liberdade”, sentencia o diretor. A citação funciona como o verdadeiro conceito do álbum: uma libertação das expectativas esmagadoras do sucesso comercial e do ciclo ininterrupto de validação da indústria pop.

E assim, sem rodeios, Charli xcx prova que a chave para a longevidade artística não reside na repetição de fórmulas consolidadas, mas sim na coragem de desmantelar o próprio pedestal no momento de maior aclamação.

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