Reinaldo Glioche
Assistir a “A Odisseia” já deixou de ser, para uma parte do público, apenas ir ao cinema: virou destino de viagem. Primeiro longa-metragem da história filmado inteiramente com câmeras Imax, o épico de Christopher Nolan só pode ser visto em sua forma “definitiva” em 41 salas no mundo todo, equipadas com projeção em película Imax de 70 milímetros — o formato de maior resolução já criado para o cinema. Diante da escassez, espectadores têm reservado passagens aéreas, hospedagens e até turnos de trabalho em torno de uma sessão. O tema foi abordado em uma reportagem da Bloomberg no último fim de semana.
O professor Sergio Estrada, de El Paso, no Texas, é um exemplo. Depois de se arrepender por mais de dez anos por não ter visto “Interstellar” no formato gigante, ele comprou quatro ingressos com um ano de antecedência e viajou até Tempe, no Arizona, o cinema mais próximo com a tecnologia. Somando combustível e hospedagem, o gasto passou de US$ 500. Para ele, a experiência de ver os detalhes ampliados na tela equivale a admirar de perto uma escultura de Michelangelo.
Casos assim se multiplicam. A produtora Kaylin Bergeson, de 33 anos, voou de Orlando a Nova York para a primeira sessão do filme, às 7h, direto de um plantão noturno no trabalho — ficou mais de 24 horas sem dormir. Ela compara a diferença entre ver o filme em Imax 70mm ou em outro formato à distância entre contemplar a Mona Lisa original e uma reprodução impressa. Já o casal formado por Bismah Zabih e o marido gastou US$ 1.200 em uma viagem de fim de semana de Tampa a Nova York só para assistir ao filme na maior tela disponível, a do cinema Lincoln Square. Para ela, a sensação de estar envolta pela imagem, sem bordas visíveis na tela, é o que torna a experiência inesquecível.
No Brasil, desde a estreia do filme, as 12 salas no formato estão com ingressos esgotados desde a estreia do longa-metragem.
A escassez também impulsionou um mercado paralelo de ingressos. No Reddit, fóruns como o r/NYCmovies se encheram de pedidos e ofertas de entradas, com sessões esgotadas por até cinco semanas em algumas cidades. Diante da demanda, o cinema Lincoln Square passou a oferecer sessões às 2h e às 6h da manhã. Uma alternativa encontrada por parte do público foi buscar cidades menores: o britânico Husnain Ramzan preferiu voar de Londres a Manchester — que tem uma das três únicas salas Imax 70mm do Reino Unido — a disputar ingressos na capital, e considerou a experiência mais do que compensadora.
Os números comprovam o fenômeno. Com orçamento de produção estimado em US$ 250 milhões e mais de 2,1 milhões de pés de película Imax consumidos nas filmagens — segundo estimativas, mais de US$ 3 milhões só em matéria-prima —, “A Odisseia” estreou com US$ 124,5 milhões em bilheteria nos Estados Unidos e no Canadá, dos quais quase um quarto veio de sessões Imax.

Após dez dias em cartaz, o filme já soma US$ 652 milhões globalmente e deve ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão nos próximos dias.
O resultado confirma uma estratégia que Nolan já havia testado com sucesso em “Oppenheimer”, quando o filme, ao lado de “Barbie”, transformou uma ida ao cinema no fenômeno cultural conhecido como Barbenheimer. Com “A Odisseia”, o diretor deu um passo além: fez do próprio formato de exibição parte central do espetáculo, provando que, em uma era de conteúdo disponível a um clique, ainda existe espaço — e demanda — para experiências cinematográficas raras, presenciais e, por isso mesmo, valiosas.