Redação Culturize-se
Miley Cyrus construiu uma carreira rara na música pop: a de uma artista que nunca pareceu inteiramente satisfeita em permanecer onde havia chegado. Aos 33 anos, ela já atravessou a televisão infantil, o pop adolescente, o hip-hop, o country, o rock, a psicodelia, o disco, a música de cantora e compositora e, mais recentemente, uma espécie de art pop ambiciosa. O mais impressionante, porém, não é a quantidade de personagens que vestiu, mas a capacidade de fazer com que cada transformação pareça parte da mesma artista.
Filha do cantor country Billy Ray Cyrus, Miley nasceu no Tennessee e cresceu em uma família profundamente ligada à música. Antes de se estabelecer como cantora, experimentou a atuação — apareceu em Doc, série de seu pai, e em “Peixe Grande”, de Tim Burton — até conquistar, em 2005, o papel que mudaria sua vida: Miley Stewart, a adolescente que levava uma vida dupla como a estrela pop Hannah Montana. A série do Disney Channel transformou uma menina em fenômeno global e criou uma equação que acompanharia Miley durante anos: a tensão entre a persona pública e a pessoa que queria existir para além dela

O primeiro grande movimento de emancipação veio ainda na adolescência. “Breakout”, de 2008, e o EP “The Time of Our Lives”, de 2009, apresentaram uma Miley que precisava provar que havia uma compositora e uma intérprete além de Hannah Montana. “Party in the U.S.A.” tornou-se um de seus maiores sucessos, enquanto “The Climb” expôs uma dimensão mais tradicional de sua relação com o country e com a narrativa de superação. Em 2010, “Can’t Be Tamed” já anunciava uma artista determinada a romper com a imagem juvenil que a indústria havia construído para ela.
Então veio “Bangerz”, em 2013, e Miley fez algo que poucas estrelas adolescentes conseguem fazer sem desaparecer no processo: transformou a própria ruptura em linguagem artística. “Wrecking Ball” não foi apenas um sucesso gigantesco; foi a demonstração de que a cantora compreendia o poder da exposição, da provocação e da teatralidade. O disco incorporava elementos de hip-hop e pop eletrônico e consolidava uma persona deliberadamente mais adulta, sexualizada e imprevisível.

Mas a trajetória de Miley fica mais interessante justamente quando ela deixa de obedecer à lógica previsível da indústria. “Miley Cyrus & Her Dead Petz”, lançado em 2015, aproximou-a da psicodelia, do indie e do experimentalismo, com participação de integrantes do The Flaming Lips e do Phantogram. Era um álbum irregular, expansivo e deliberadamente estranho — quase uma declaração de independência em relação à obrigação de produzir hits. Dois anos depois, “Younger Now” fazia o movimento contrário: aproximava Miley novamente de suas raízes country e incluía Dolly Parton em “Rainbowland”.
Dolly, aliás, não é uma referência lateral nessa história. É uma espécie de elo subterrâneo que conecta diferentes versões de Miley. Parton era sua madrinha e esteve presente desde a infância; apareceu em Hannah Montana, dividiu gravações e palcos com a afilhada e ajudou a manter viva uma conexão com a tradição musical do Sul dos Estados Unidos. A relação também sintetiza uma das características mais importantes de Miley: a capacidade de absorver uma tradição sem necessariamente reproduzi-la.
Em 2020, “Plastic Hearts” apresentou outra mutação. O rock assumiu o primeiro plano, acompanhado de referências ao glam, ao disco e à tradição de grandes vocalistas performáticas. Miley parecia finalmente ter encontrado um território no qual suas experiências anteriores — a cantora pop, a estrela de televisão, a adolescente country, a provocadora de “Bangerz” — podiam coexistir. O álbum chegou ao segundo lugar da Billboard 200.
“Endless Summer Vacation”, de 2023, aprofundou essa síntese. Se “Flowers” se tornou o maior fenômeno comercial de sua carreira — liderando a Billboard Hot 100 por oito semanas —, o álbum era mais sofisticado do que seu single poderia sugerir. Havia soft rock, disco, dance-pop, country e uma tradição de composição ligada ao universo de Los Angeles. O reconhecimento veio também da indústria: em 2024, Miley ganhou seus primeiros Grammys, por “Flowers” nas categorias de Gravação do Ano e Melhor Performance Pop Solo.
E quando parecia que a cantora havia chegado a uma síntese definitiva, “Something Beautiful”, de 2025, abriu outra porta. O nono álbum de estúdio aproximou Miley do progressive pop e do art rock, incorporando referências de eletrônica dos anos 1990, pop luminoso, rock ruidoso e jazz. O projeto ainda ganhou uma dimensão visual própria, transformando o disco em uma obra que extrapolava a lógica convencional do álbum pop.
É nesse percurso que a palavra polivalência deixa de ser um elogio genérico e passa a definir uma estratégia artística. Miley não é apenas uma cantora capaz de experimentar gêneros diferentes. Ela é uma intérprete que utiliza gêneros diferentes para investigar diferentes versões de si mesma. A adolescente country não desapareceu na estrela pop de “Bangerz”; a roqueira de “Plastic Hearts” não anulou a compositora de “Flowers”; a artista experimental de “Something Beautiful” não rompeu com a tradição herdada de Dolly Parton. Tudo permanece disponível.
Agora, essa história ganha um novo capítulo.
“Bass Persuades”: outra transformação
Miley anunciou oficialmente seu décimo álbum de estúdio, “Bass Persuades”, com lançamento marcado para 18 de setembro, pela Atlantic Records, com distribuição da Warner Music no Brasil. O título chega pouco mais de um ano depois de “Something Beautiful” e sugere que a inquietação criativa continua sendo o motor dessa carreira.
O novo ciclo também representa uma mudança simbólica: Miley vem se apresentando simplesmente como MILEY, retirando “Cyrus” de sua identidade profissional. Mais do que uma operação de imagem, o gesto parece coerente com uma artista que passou a vida inteira tentando separar o nome, a personagem e a pessoa.
A apresentação visual de “Bass Persuades” foi construída em colaboração com nomes importantes da moda. A edição especial da Wonderland Magazine traz Miley como editora convidada, em ensaio fotografado por Mario Sorrenti. Alastair McKimm, Chief Creative Officer da publicação, participa da construção estética do projeto ao lado da cantora, enquanto Mert Alas é responsável pelo universo visual associado ao novo álbum.
E há algo particularmente significativo no fato de que essa nova fase surja justamente neste momento. Miley segue processando a influência de Dolly Parton, cuja presença atravessou sua vida pessoal e profissional. As duas dividiram música, televisão e palco — inclusive no especial “Miley’s New Year’s Eve Party”, produzido por Lorne Michaels.

“Bass Persuades” chega, portanto, não apenas como o décimo capítulo de uma discografia. Ele chega como o resultado provisório de quase duas décadas de reinvenção. Miley foi estrela infantil, atriz, cantora country-pop, ícone teen, provocadora pop, artista experimental, roqueira, diva disco, compositora adulta e autora de projetos audiovisuais. Em cada etapa, deixou alguma coisa para trás, mas quase nada foi realmente perdido.
Agora, aos 33 anos, ela parece interessada menos em escolher uma dessas identidades do que em colocá-las todas para conversar.
O retorno aos palcos reforça essa expectativa. Miley fará duas apresentações no Hollywood Bowl, em Los Angeles, nos dias 16 e 18 de outubro, em seus primeiros grandes shows em um palco desde 2022. A escolha do local é particularmente simbólica: a própria artista já descreveu o Hollywood Bowl como seu lugar favorito para experimentar música e assistir a seus artistas preferidos, embora nunca tivesse subido ao palco dali.
É difícil imaginar cenário mais adequado para a próxima mutação. Afinal, a história de Miley Cyrus é também a história de uma artista que descobriu muito cedo que permanecer igual seria, para ela, a forma mais previsível de fracassar.
“Bass Persuades” chega para descobrir o que acontece quando, depois de todas essas versões, Miley decide simplesmente ser Miley.