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Entre alucinação e memória, Refn estreia seu filme mais silencioso

Redação Culturize-se

O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn está de volta ao cinema com “Her Private Hell”, uma fantasia sombria e onírica que marca seu primeiro longa desde “O Demônio de Neon”, de 2016. O filme, uma reinterpretação livre do clássico pulp britânico dos anos 1960 de mesmo título assinado por Norman J. Warren, transita entre um hotel gigantesco e vazio em uma cidade distópica renderizada digitalmente, o universo interno de alucinações e memórias de seus personagens, e um flashback ambientado no Japão do pós-guerra ocupado pelos Estados Unidos. No elenco estão Sophie Thatcher, como Elle, uma jovem presa a uma dinâmica tóxica com o pai, Johnny Thunders (Dougray Scott), a madrasta Dominique (Havana Rose Liu) e a influenciadora Hunter (Kristine Froseth), além de Charles Melton como um soldado americano em busca da filha desaparecida, e a presença ameaçadora de um assassino conhecido como “Leather Man”.

Estilo e estética permanecem como assinatura do cineasta | Foto: Divulgação

Apesar da estética hipnótica, mergulhada nos tons de neon roxo, vermelho e azul característicos do diretor, o longa surpreende por se afastar da violência explícita presente em obras anteriores como “Drive” e “Apenas Deus Perdoa”. No lugar do banho de sangue esperado, resta uma tristeza silenciosa — quase como um resíduo deixado após o consumo do prazer ou do vício.

Essa mudança de tom não é acidental. Há três anos, Refn foi diagnosticado com uma condição cardíaca grave, que o obrigou a passar por uma cirurgia na qual seu coração ficou separado do corpo por 25 minutos — período em que, segundo ele, esteve clinicamente morto. “Mas isso aconteceu no momento certo da minha vida, porque eu tinha chegado ao ápice criativo do que eu queria fazer. Não havia mais nada para mim, então morri na hora certa”, contou o cineasta à MovieMaker. Após a cirurgia, ele descreve ter sentido como se tivesse recebido uma segunda chance: “Percebi que havia ganhado um presente, que eu poderia recomeçar. Minha memória corporal quase foi apagada. Eu tinha as emoções da minha vida anterior, mas agora tinha a capacidade de começar uma nova.”

Foi esse estado de “memória apagada” que moldou “Her Private Hell”. Segundo Refn, o filme “veio de eu ter apagado da memória o que um filme deveria ser, o que me deixou muito feliz”. A obra abarca ainda reflexões mais amplas do diretor sobre o processo criativo. Para ele, o resultado final de uma obra é secundário diante da experiência de criá-la: “Você está vivo quando está fazendo. O barato criativo flui através desse processo… O resultado tem mais a ver com vaidade e ego, e ser recompensado ou não, amado ou odiado. Mas essas forças externas são secundárias.” Refn também defende a liberdade total como condição essencial para criar: “Você nunca pode fazer por comitê, nunca pode fazer por suposição. […] Ser livre é o maior prazer de todos.”

Refn ao lado do ator Charles Melton em entrevista promocional | Foto: Reprodução/YouTube

A recepção em Cannes, onde o filme foi exibido fora de competição, foi mista — reação à qual o diretor, conhecido por dividir opiniões ao longo de toda a carreira, diz estar acostumado. Mais importante para ele é a satisfação pessoal com o trabalho: “Vem da pergunta: você está satisfeito? Se sente livre? Se sente realizado?” Aos 55 anos, Refn descreve-se como grato e renascido — “como um bebê caindo da graça de Deus” — pronto para seguir criando a partir de uma nova perspectiva sobre a vida e o próprio ofício de cineasta.

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