Redação Culturize-se
Los Angeles ganha, em 22 de setembro, uma nova instituição cultural de proporções ambiciosas. Depois de oito anos da cerimônia de lançamento da pedra fundamental, o Lucas Museum of Narrative Art finalmente abre suas portas no Exposition Park. Criado pelo cineasta George Lucas, diretor de Star Wars, e sua mulher, Mellody Hobson, o museu consumiu cerca de US$ 1 bilhão e chega à cidade propondo uma ideia tão abrangente quanto controversa: colocar no mesmo espaço manifestações tradicionalmente separadas pela história da arte.
Projetado pelo arquiteto chinês Ma Yansong, do escritório MAD, em parceria com a Stantec, o edifício de aproximadamente 27,8 mil metros quadrados parece ter saído de um filme de ficção científica. Suas formas curvas e esculturais remetem simultaneamente a uma nave espacial e à copa de uma árvore. A opção não é apenas estética. Segundo Yansong, a arquitetura elevada cria sombra e proteção contra o sol californiano, enquanto um grande espaço público permite a observação do céu.
A construção abriga mais de 9.300 metros quadrados de área expositiva, distribuídos em 35 galerias, além de dois cinemas, biblioteca, espaços educativos, café, loja e o Skywalker Grill, restaurante no topo do edifício. Do lado de fora, o projeto paisagístico de Mia Lehrer transformou uma área antes dominada pelo asfalto em um parque com mais de 300 árvores, prados, anfiteatro, jardim suspenso e uma fonte inspirada em uma cachoeira. Os jardins são abertos também a quem não pretende visitar as exposições.
O verdadeiro manifesto do museu, contudo, está no acervo. A exposição inaugural reúne mais de 1.200 peças selecionadas de uma coleção particular que ultrapassa 40 mil obras. Frida Kahlo, Norman Rockwell, Maxfield Parrish e Banksy dividem espaço conceitual com quadrinhos, ilustrações, fotografias, cartazes, cinema e objetos associados ao universo de Star Wars. A presença de elementos da saga, como a motocicleta de General Grievous, não transforma a instituição em um museu dedicado à franquia. Lucas insiste que sua proposta é mais ampla.



A chave está no conceito de “arte narrativa”: trabalhos capazes de traduzir histórias em imagens. Por isso, as galerias não foram organizadas cronologicamente nem segundo a trajetória de artistas, mas por temas como amor, família, aventura e diversão. É uma escolha que procura aproximar o visitante da experiência das obras, em vez de exigir dele conhecimento prévio de história da arte.
A Research Library amplia essa vocação democrática. Gratuita, ela reúne mais de 30 mil histórias em quadrinhos, livros provenientes da biblioteca do Skywalker Ranch e aproximadamente 2.900 volumes que pertenceram ao mitólogo Joseph Campbell, uma das principais referências intelectuais de Lucas.
A instituição também aposta no cinema, com dois auditórios de 299 lugares e uma programação que combina documentários, cinema experimental, animação, filmes mudos e obras relacionadas aos artistas presentes no acervo.
A ambição, entretanto, não chega sem controvérsia. O projeto sofreu atrasos provocados pela pandemia, conflitos entre arquitetos e empreiteiros, mudança na direção e demissões em áreas de educação e serviços. A própria ideia de “arte narrativa” já foi criticada por parecer uma categoria excessivamente abrangente. Ainda assim, o museu aposta justamente nessa fronteira difusa.
Mais do que celebrar Star Wars, o Lucas Museum quer legitimar aquilo que os museus tradicionais frequentemente mantiveram à margem. Quadrinhos, ilustração, cinema e cultura popular passam a dialogar, em pé de igualdade, com Kahlo ou Rockwell. É uma aposta ousada! Talvez o maior experimento cultural de George Lucas não esteja em uma galáxia muito, muito distante, mas justamente no modo como escolheu contar histórias sobre a nossa.