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"Feito Pipa" pode surfar em interesse pelo cinema brasileiro para chegar ao Oscar

Reinaldo Glioche

A escolha de “Feito Pipa”, de Allan Deberton, para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional em 2027 é interessante justamente porque aponta para um caminho diferente daquele percorrido pelos dois representantes brasileiros anteriores. É um filme de escala menor, rodado em Quixadá, no interior do Ceará, e que chega à corrida internacional depois de construir uma trajetória consistente em festivais. A produção estreou na Berlinale, onde conquistou o Urso de Cristal de melhor filme da mostra Generation Kplus, passou por Guadalajara, com dois prêmios, e foi o grande destaque do Festival de Gramado, de onde saiu com quatro Kikitos, entre eles os de melhor direção, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e o Prêmio do Público.

O longa conta a história de Gugu, um garoto de 12 anos apaixonado por futebol e criado pela avó, Dilma, uma professora aposentada que oferece a ele uma vida livre, afetiva e criativa.

A relação com o pai, Batista, é diferente e marcada por ausências, expectativas e sentimentos que não são colocados em palavras. O conflito ganha força quando Gugu precisa enfrentar a possibilidade de passar a morar com o pai.

Há algo de particularmente significativo nessa escolha. Assim como “O Agente Secreto” no ano passado, “Feito Pipa” é um filme produzido no Nordeste brasileiro, distante do eixo mais tradicional da produção cinematográfica nacional. E, embora não tenha — ao menos até aqui — provocado o impacto internacional de “Ainda Estou Aqui” ou de “O Agente Secreto”, possui um elemento fundamental para uma campanha pelo Oscar: lastro em festivais internacionais e reconhecimento crítico.

Mais do que isso, o filme chega a Hollywood em uma circunstância especialmente favorável ao cinema brasileiro.

O Brasil emplacou, por dois anos consecutivos, produções entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional e, em ambos os casos, conseguiu algo ainda mais significativo: chegar também à categoria principal de melhor filme. “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” ampliaram consideravelmente a visibilidade do cinema brasileiro junto à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. É razoável imaginar, portanto, que exista hoje um interesse maior dos votantes em conhecer aquilo que o Brasil está apresentando.

Fotos: Divulgação

Isso não significa uma simpatia automática por “Feito Pipa”. Significa, antes, interesse. E, em uma temporada de premiações, ser objeto de interesse já representa uma vantagem concreta. O filme não chega como um desconhecido absoluto a uma indústria que acabou de prestar atenção especial ao cinema brasileiro.

As chances de avançar, entretanto, continuam remotas. A concorrência internacional é particularmente forte, com filmes de grande repercussão no circuito de festivais, incluindo o vencedor da Palma de Ouro, “Fjord”, além de produções egressas de Cannes, como “Minotauro” e “Terra de Meu Pai”.

Há ainda uma novidade importante nesta temporada: filmes premiados nos principais festivais internacionais passaram a ser elegíveis independentemente de terem sido escolhidos pelos respectivos países para representá-los. A mudança pode alterar a dinâmica da disputa. Em tese, produções que já receberam prêmios importantes tendem a chegar à temporada com maior visibilidade e, consequentemente, com mais possibilidades de serem vistas pelos integrantes da Academia.

Isso pode criar uma espécie de efeito de concentração: filmes que já chegam badalados por suas passagens pelos principais festivais podem ocupar espaço na temporada em detrimento de produções que dependem exclusivamente da campanha de seus países para conquistar atenção.

Nesse cenário, “Feito Pipa” parte de uma posição delicada. Não é um dos gigantes da temporada, tampouco chega com o impacto internacional imediato de seus antecessores brasileiros. Mas também não é mais um representante brasileiro lançado ao acaso em uma disputa dominada por produções europeias e asiáticas de repercussão.

O filme de Allan Deberton tem festival, prêmios, crítica, identidade e um país que, nos últimos dois anos, passou a ser observado com outros olhos por Hollywood.

Talvez isso não seja suficiente para levá-lo ao Oscar. Mas certamente torna sua candidatura mais relevante — e suas possibilidades mais concretas — do que seriam antes da extraordinária safra brasileira inaugurada por “Ainda Estou Aqui” e continuada por “O Agente Secreto”. A missão de “Feito Pipa”, agora, é transformar o interesse que o cinema brasileiro conquistou em atenção suficiente para fazer Gugu, Dilma e a paisagem de Quixadá atravessarem mais uma fronteira.

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