Redação Culturize-se
A influência da inteligência artificial sobre os processos eleitorais deixou de ser uma preocupação futurista para se tornar uma realidade imediata e financeiramente expressiva. Nos Estados Unidos, empresas de tecnologia ligadas à IA estão injetando recursos bilionários nas eleições de meio de mandato de 2026, enquanto no Brasil o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) busca criar barreiras regulatórias para conter os excessos da tecnologia nas urnas de outubro.
Segundo reportagem do Los Angeles Times, grupos de financiamento político vinculados a gigantes como OpenAI e Anthropic já se colocaram entre os maiores investidores da atual campanha eleitoral norte-americana. O montante distribuído até o momento supera os US$ 37 milhões — valor que deve crescer exponencialmente conforme novembro se aproxima. A estratégia das corporações, contudo, surpreende: em vez de alinhar-se exclusivamente ao Partido Republicano, tradicionalmente favorável ao setor empresarial, as companhias financiam candidatos de ambos os lados do espectro político.
A OpenAI, criadora do ChatGPT, mantém ligações diretas com o American Mission PAC, que doou US$ 8 milhões a republicanos, e com o Think Big PAC, que já aplicou 14,1 milhões em campanhas democratas. Já a Anthropic financia o Jobs and Democracy PAC (US$ 11 milhões para democratas) e o Defending Our Values PAC (US$ 5,2 milhões para republicanos). A tática de “cobrir ambas as apostas” visa, segundo analistas, neutralizar candidatos outsiders que pregam regulação da IA e restrições à construção de data centers.
O impacto prático dessa estratégia já é visível. Em Montana, o candidato republicano Al Olszewski, que se apresentava como “conservador de base”, foi derrotado nas primárias após um super PAC ligado ao cofundador da OpenAI investir quase US$ 900 mil dólares em seu adversário. “Não havia como uma pessoa da base competir com esse tipo de dinheiro. Fui esmagado”, declarou Olszewski ao jornal californiano.
No Brasil, o cenário é de alerta institucional. O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, elegeu o combate ao uso inadequado de IA como prioridade de sua gestão, iniciada em maio. No fim de maio, ele realizou a primeira reunião com presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e anunciou a criação de uma comissão permanente para tratar do uso responsável da inteligência artificial nas campanhas. O grupo terá 90 dias para elaborar um catálogo nacional de soluções e contará com parcerias acadêmicas especializadas em perícias de ilícitos digitais.
A preocupação do TSE transcende a tradicional discussão sobre “fake news”. Especialistas apontam que a IA generativa alterou estruturalmente a comunicação política ao permitir a produção automatizada de vídeos, imagens, vozes e conteúdos sintéticos praticamente indistinguíveis da realidade. Em sociedades hiperconectadas, onde algoritmos de plataformas digitais privilegiam engajamento e reação emocional, esses mecanismos criam o que parte da doutrina jurídica internacional chama de “política sintética” (synthetic politics): a utilização de conteúdos artificialmente produzidos para influenciar comportamento político e formação da vontade eleitoral.

Para conter avanços desse tipo, o TSE já havia aprovado em março limitações ao uso de IA nas campanhas, proibindo que provedores de tecnologia sugerissem candidatos aos usuários, mesmo que solicitados. A medida visa evitar a interferência algorítmica na livre escolha do eleitor. Além disso, os TREs deverão criar unidades próprias de segurança da informação.
Em 17 de junho, 26 partidos políticos assinaram no TSE um termo de compromisso pela integridade das Eleições 2026. Entre os signatários estão dirigentes de legendas de diferentes espectros, como Edinho Silva (PT), Valdemar Costa Neto (PL) e representantes de agremiações sem bancada no Congresso. Quatro siglas — Missão, PRTB, PCO e PSTU — não aderiram ao acordo. Pelo documento, as legendas se comprometem a utilizar recursos digitais de forma responsável, combater a desinformação e respeitar as regras de inclusão de candidaturas femininas, negras e indígenas.
O presidente do TSE reforçou que a adesão dos partidos é condição indispensável para o emprego ético das tecnologias. “Diante de um ecossistema digital complexo, o uso ético e responsável das ferramentas de inteligência artificial depende, indubitavelmente, da participação de todos os contendores da eleição”, afirmou Nunes Marques.
Do outro lado do Atlântico, a realidade mostra que a regulação brasileira ainda patina diante da velocidade dos investimentos privados. Enquanto o Congresso americano debate projetos de lei sobre segurança da IA, as empresas do setor já posicionam peças no tabuleiro político com recursos que superam os próprios candidatos. Como observou o ex-executivo de políticas públicas do Google Adam Kovacevich, as companhias de IA estão se tornando “confortáveis em usar seu poder para alcançar objetivos políticos”.
A lição é clara: em um mundo onde a informação pode ser sintetizada em escala industrial e o financiamento eleitoral transcende fronteiras partidárias, a democracia enfrenta o desafio de preservar sua integridade cognitiva. A questão não é mais se a IA vai interferir nas eleições, mas como as sociedades conseguirão garantir que essa interferência não comprometa a legitimidade do voto.