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Como histórias fabricadas se tornam verdades inquestionáveis

Por Reinaldo Glioche

No conto “A Invenção do Radinho”, de Thiago Barone, moradores da pequena Jordânia, em Minas Gerais, mobilizam-se para um ataque iminente que jamais existiu. A guerra entre Israel e Jordânia, noticiada em algum rádio distante, confunde-se com a própria cidade onde vivem. O equívoco é absurdo, mas a reação é total: medo compartilhado, comportamentos alterados, uma comunidade inteira reconfigurada por uma narrativa mal compreendida. Barone, com seu humor ácido e ironia regionalista, constrói ali uma metáfora perfeita para uma questão que atravessa toda a história humana: a verdade não habita os fatos, mas as histórias que contamos sobre eles.

A filosofia há muito desconfia da ideia de uma verdade objetiva, imune à interpretação. Nietzsche já advertia que não existem fatos, apenas interpretações. O que Barone ilustra com a Jordânia mineira é precisamente isso: a realidade é um campo de batalha semântico, onde quem controla a narrativa controla o que será aceito como verdade. O medo, nesse cenário, funciona como catalisador. Quando uma comunidade acredita estar sob ameaça, não importa se a ameaça é real — o que importa é a crença coletiva, que gera ações concretas, reorganiza relações sociais e, em última instância, produz uma nova realidade. A narrativa não descreve o mundo; ela o constitui.

Livro de contos de Barone

Esse fenômeno não se restringe a ficções literárias ou a pequenas cidades do interior. Em escala nacional e internacional, vemos narrativas moldarem políticas econômicas, definirem alianças estratégicas e justificarem conflitos. A questão tarifária imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, por exemplo, é apenas uma faceta de uma complexa disputa comercial. Mas na gramática política se transforma em uma narrativa sobre soberania nacional. De um lado, a história de que aproximação com Donald Trump traria benefícios econômicos; de outro, a narrativa de que essa aproximação significaria subserviência e, portanto, feriria a autonomia do país. Ambas as versões competem pelo espaço da verdade coletiva. O que a população brasileira acreditar — há subserviência bolsonarista ou “inevitabilidade” de uma política externa — definirá não apenas a percepção do governo, mas o comportamento eleitoral, a pressão sobre diplomatas e, possivelmente, o rumo das relações bilaterais por anos. A narrativa, aqui, antecede e supera o fato.

O esporte, por sua vez, oferece alguns dos exemplos mais claros de como narrativas fabricam salvadores e vilões. Endrick foi vendido como o “salvador da pátria” para a seleção brasileira na Copa do Mundo antes mesmo de pisar em campo com a camisa amarela. A imprensa, os torcedores, as redes sociais — todos construíram uma narrativa messiânica em torno de um jogador que ainda não se provara em campo. A expectativa coletiva transformou-se em verdade: Endrick seria a solução para problema crônico do ataque canarinho. Contra a Noruega, a decepção assentou-se sobre as expectativas descontroladas. É curioso que a narrativa molda não apenas a percepção pública, mas a própria experiência existencial do atleta.

Thiago Barone, ao afirmar que “a verdade perde espaço para aquilo que as pessoas escolhem acreditar”, toca em um nervo central da condição humana. Não escolhemos nossas crenças por critérios racionais estritos; escolhemos, antes, aquelas que ressoam com nossos medos, desejos e identidades. Uma cidade inteira acredita em um ataque inexistente porque o medo já habitava ali. Uma nação acredita que um jovem de dezessete anos carrega o destino de um país porque o desejo de redenção já era coletivo. Uma população personaliza a responsabilidade por tarifas externas porque a narrativa de soberania ferida confirma uma crença prévia sobre alianças perigosas.

Ilustração criada com IA

O perigo, portanto, não está apenas na desinformação — embora ela seja instrumento poderoso. O perigo está na estrutura mesma de como construímos nossas verdades. Narrativas são redes de significação que conectam fatos isolados em padrões compreensíveis. Sem elas, o mundo seria caos ininteligível. Mas essa mesma função cognitiva as torna vulneráveis à manipulação, ao viés de confirmação, às paixões coletivas. Quando uma narrativa se consolida como verdade, ela se torna autossuficiente: fatos contraditórios são reinterpretados ou ignorados, dissidentes são silenciados, e a história passa a gerar a realidade que pretende apenas descrever.

A ironia de Barone, seu humor que não suaviza a crítica, é filosófica em sua essência. Ele nos mostra que rir do absurdo da Jordânia mineira é, simultaneamente, reconhecer o absurdo de nossas próprias certezas. O espelho que o autor propõe não reflete uma verdade estável, mas a imagem mutável de quem o contempla — uma imagem formada por narrativas que herdou, que construiu, que escolheu acreditar. E, como todo bom espelho, ele não julga: apenas revela que a verdade coletiva é, afinal, uma invenção coletiva. Não menos real por isso. Apenas mais humana e mais perigosa do que gostaríamos de admitir.

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