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Como a lógica dos algoritmos colonizou o imaginário amoroso contemporâneo

Redação Culturize-se

Há uma cena que se repete com perturbadora frequência no cotidiano contemporâneo: uma pessoa desliza o dedo sobre uma tela, avalia rostos e perfis em frações de segundo, e toma decisões de aproximação ou descarte com a mesma agilidade com que filtra resultados de busca. Essa cena, banal ao ponto de ter perdido seu estranhamento, sintetiza algo que merece interrogação filosófica profunda: a emergência de um network amoroso. Trata-se de uma concepção das relações afetivas estruturada segundo a lógica das redes, da otimização e da curadoria permanente do eu.

O termo network, oriundo do vocabulário técnico das telecomunicações e, posteriormente, da sociologia das organizações, migrou silenciosamente para o domínio do afeto. Hoje, fala-se em “expandir conexões”, “nutrir relacionamentos”, “filtrar incompatibilidades” — um léxico que não é apenas metafórico, mas sintomático de uma transformação ontológica na forma como o sujeito contemporâneo concebe a si mesmo e ao outro no campo do amor.

Do Laço ao nó

A sociologia clássica compreendia as relações afetivas a partir da metáfora do laço — algo que se amarra, que implica resistência, que deixa marca. Ferdinand Tönnies, ao distinguir Gemeinschaft (comunidade) de Gesellschaft (sociedade), já intuía que a modernidade produziria vínculos progressivamente mais instrumentais e racionalizados. O que ele não poderia antecipar era a radicalização desse processo na contemporaneidade. O laço não foi apenas enfraquecido, foi substituído pelo nó de rede; algo que se conecta e desconecta sem atrito, que existe na medida em que está ativo, e que perde sentido quando a conexão cai.

Zygmunt Bauman, com sua figura do amor líquido, capturou uma dimensão desse fenômeno, mas ainda o ancorava numa nostalgia do sólido. A questão que se impõe hoje é mais radical. O network amoroso não é a decadência de uma forma anterior de amor — ele é uma forma nova, com sua própria coerência interna. Não se trata de laços que se liquefizeram, mas de uma arquitetura afetiva que nunca aspirou à solidez, porque foi concebida dentro de uma outra lógica temporal e espacial.

O sujeito como perfil

Uma das dimensões mais reveladoras do network amoroso é a transformação do sujeito em interface. Para habitar as redes afetivas contemporâneas, sejam elas mediadas por aplicativos ou não, o indivíduo aprende a construir uma versão editada, curada e estrategicamente apresentada de si mesmo. O filósofo Byung-Chul Han chama atenção para a sociedade da transparência e da positividade, onde o sujeito se expõe compulsivamente, não por abertura genuína, mas pela lógica da visibilidade como condição de existência.

Foto: Reprodução/Internet

No network amoroso, o perfil precede a pessoa. Antes do encontro, há a seleção; antes da seleção, há a apresentação; antes da apresentação, há a cuidadosa montagem de uma identidade desejável. Isso não é, evidentemente, algo inteiramente novo, já que toda sociabilidade envolve algum grau de performance. O que é novo é a sistematização e a escala desse processo. Nunca antes o sujeito foi convocado, com tanta regularidade e por tanto tempo, a se autoproduzir como objeto de desejo para uma audiência anônima e potencialmente infinita.

A consequência filosófica disso é grave. Se o outro que se busca é sempre um perfil antes de ser uma pessoa, a alteridade radical — aquilo que Emmanuel Levinas reconhecia no rosto do outro como irredutível e interpelante — é neutralizada antes do encontro. O outro comparece já filtrado, já compatibilizado, já pré-aprovado por algoritmos que aprenderam o que o sujeito “gosta”. A surpresa, o estranhamento, o que não se escolheria mas que transforma é sistematicamente eliminado como ruído.

A nova gramática afetiva

O network amoroso não atravessa igualmente todas as gerações, mas produz uma fratura epistêmica no modo como elas concebem o amor, o compromisso e a vulnerabilidade.

Para as gerações nascidas antes dos anos 1980, o amor foi socialmente codificado como uma narrativa com começo, meio e fim previsíveis: o encontro, o namoro, o casamento, a família. Havia um roteiro, mesmo que opressor, que conferia ao afeto uma estrutura de sentido. A dor do amor, nesse quadro, era também pedagogia: ensinava sobre limites, sobre o outro, sobre si.

Para os Millennials, esse roteiro entrou em colapso ao mesmo tempo em que as tecnologias de mediação afetiva surgiam. Eles viveram a dissonância: foram educados para o amor-narrativa, mas imersos nas condições do amor-rede. Daí surgiu uma ambivalência característica. Busca-se profundidade, mas pratica-se descartabilidade.

Foto: Pexels

Já os Zoomers (Geração Z) e os nascidos depois deles cresceram dentro do paradigma da rede. Para muitos deles, o network amoroso não é uma deformação do amor “verdadeiro”. É simplesmente o modo como o amor existe. Categorias como “exclusividade” são negociadas explicitamente; a “conexão” é valorizada sobre o “comprometimento”; a saída de uma relação é enquadrada não como fracasso, mas como “redirecionamento”. Há, nessa gramática, uma sofisticação inegável: maior consciência sobre dinâmicas de poder, sobre consentimento, sobre saúde emocional. Mas há também, potencialmente, uma evitação estrutural da vulnerabilidade profunda — porque a rede sempre oferece um nó alternativo antes que a perda de um nó anterior se torne insuportável.

A colonização do afeto

Não é possível compreender o network amoroso sem interrogar sua determinação econômica. O filósofo Michael Sandel adverte sobre os limites morais do mercado — sobre o que acontece quando a lógica mercantil invade domínios que têm seus próprios valores internos. O amor é, historicamente, um desses domínios: ele só funciona como amor quando excede o cálculo, quando é dado sem garantia de retorno, quando não é otimizável.

A socióloga Eva Illouz demonstrou, em sua análise do capitalismo emocional, que o mercado não apenas influencia o amor, mas o reformata. As plataformas de relacionamento são empresas com modelo de negócio baseado no engajamento contínuo, não na conexão bem-sucedida. Um aplicativo que efetivamente “resolvesse” o amor de seus usuários seria, do ponto de vista do capital, um fracasso. O incentivo estrutural é manter o sujeito em busca permanente, consumindo perfis, refinando preferências, permanecendo no mercado afetivo.

O resultado é uma subjetividade amorosa cronicamente insatisfeita por design — não por patologia individual, mas por arquitetura sistêmica. O sujeito do network amoroso está sempre a um deslize de tela de distância de algo potencialmente melhor, e essa possibilidade infinita é tanto promessa de liberdade quanto armadilha de paralisia.

É tentador concluir esse percurso com uma nostalgia do amor sólido, do comprometimento irrefletido, da entrega total. Mas essa nostalgia seria filosoficamente desonesta, pois apagaria as formas de sofrimento que aquelas estruturas também produziam: amor como posse, como obrigação, como apagamento de si.

O que a problematização do network amoroso exige não é um retorno, mas uma interrogação lúcida sobre o que se perde e o que se ganha em cada forma de organizar o afeto. Ela exige perguntar: é possível cultivar, dentro das redes, formas de presença que não sejam imediatistas? É possível sustentar a alteridade do outro dentro de uma arquitetura que tende a reduzi-lo a dado? É possível fazer do amor não apenas uma conexão bem-sucedida, mas um projeto de transformação mútua?

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