Por Reinaldo Glioche
Há algo de programático, e também de profundamente pessoal, nas escolhas recentes de Angelina Jolie no cinema. Ao se afastar de produções de grande estúdio e se aproximar de um circuito mais autoral, com forte inflexão europeia, a atriz parece empenhada em construir uma filmografia que dialogue com temas íntimos, quase confessionais. Se em “Maria” (2024), sob a direção de Pablo Larraín, ela encarnava a solidão e o esvaziamento emocional de Maria Callas, em “Vidas Entrelaçadas” esse movimento ganha contornos ainda mais sensíveis — e, de certo modo, mais autobiográficos.
O filme parte de um mosaico narrativo que acompanha três mulheres durante a efervescência da semana de moda de Paris. Jolie interpreta Maxine, uma cineasta americana que enfrenta um diagnóstico de câncer de mama; Aya (Anyier Anei), uma jovem sul-sudanesa deslocada de seu país e de si mesma, tenta se afirmar em um ambiente que lhe é completamente estranho; e Angèle (Ella Rumpf), uma maquiadoa que busca romper com a repetição estéril de sua rotina. São histórias que se cruzam, mas não se fundem — o que o título original, evocando “costuras”, já sugere com precisão. Não há aqui uma hierarquia narrativa clássica, tampouco um entrelaçamento dramático que transforme radicalmente as personagens. O que há é convivência, eco, ressonância.
Essa escolha estrutural é coerente com a proposta estética do filme. “Vidas Entrelaçadas” se constrói menos pela ação e mais pela suspensão: silêncios prolongados, olhares que não se completam, gestos interrompidos. É um cinema da espera, da latência, em que os conflitos não explodem, mas se insinuam. Nesse sentido, o longa se alinha a uma tradição europeia de depuração narrativa, na qual o drama não está no evento, mas na percepção do evento.
No centro desse tecido está Maxine. A personagem de Jolie carrega o peso de um corpo que se torna, subitamente, território de ameaça e, ao mesmo tempo, de reconciliação. A doença, longe de ser tratada como dispositivo melodramático, funciona como vetor de introspecção. Há um evidente paralelo com a própria trajetória da atriz, cuja decisão de realizar uma mastectomia preventiva após o histórico familiar de câncer é amplamente conhecida. No filme, essa dimensão biográfica não é explicitada, mas reverbera na composição: Maxine é uma mulher que não sucumbe ao medo, mas também não o nega. Ela o habita.
A relação com o oncologista vivido por Vincent Lindon é exemplar nesse sentido. Lindon imprime à personagem uma secura quase clínica, que contrasta com a vulnerabilidade de Maxine sem jamais resvalar na frieza desumanizada. Há compreensão, mas não há concessão. É um masculino que se apresenta como limite, como dado incontornável da realidade. Em contraponto, a interação com o assistente de direção interpretado por Louis Garrel introduz uma outra camada: a do desejo como fuga, como tentativa de reinscrever o corpo em uma lógica de vitalidade. O envolvimento entre eles, ainda que episódico, tensiona essa dinâmica e evidencia diferentes formas de resposta ao sofrimento.


Mas talvez o gesto mais radical do filme seja justamente recusar a centralidade absoluta de Maxine, apesar do peso de Jolie. Aya e Anjali não orbitam ao redor dela; elas existem por si, em suas próprias incompletudes. Aya, especialmente, carrega um deslocamento que não é apenas geográfico, mas identitário. Sua presença na indústria da moda — um espaço historicamente marcado por assimetrias e exotizações — é tratada com sobriedade, sem discursos explícitos, mas com uma consciência aguda das tensões implicadas.
Angèle, por sua vez, encarna um outro tipo de aprisionamento: o da rotina que esvazia o desejo criativo. Sua tentativa de leveza não é escapismo, mas estratégia de sobrevivência. Se Maxine enfrenta a finitude do corpo, Anjali confronta a estagnação do espírito. E é nessa justaposição que o filme encontra uma de suas forças: ao colocar lado a lado diferentes formas de limite, ele sugere que a resiliência não é uma qualidade abstrata, mas uma prática cotidiana, situada.
Há, evidentemente, um risco nesse tipo de abordagem: o de que a contenção se converta em distanciamento emocional. “Vidas Entrelaçadas” flerta com esse limite em alguns momentos, sobretudo pela recusa em oferecer resoluções mais nítidas. No entanto, é justamente essa recusa que também lhe confere singularidade. Ao não “explicar” suas personagens, o filme as preserva.
No conjunto, trata-se de uma obra que não busca grandes gestos, mas pequenas inflexões. Não é um filme de clímax, mas de continuidade — de como seguir apesar de. E, nesse percurso, Angelina Jolie reafirma uma faceta cada vez mais interessante de sua carreira: a de uma artista que, ao invés de se expandir para fora, escolhe cavar para dentro.