Redação Culturize-se
Durante anos, a leitura foi tratada como o oposto da vida em grupo: um hábito de quarto fechado, silencioso, quase clandestino. A Geração Z, formada por quem nasceu entre meados dos anos 1990 e o fim dos anos 2000, está desmontando essa imagem. Segundo o Panorama do Consumo de Livros e a pesquisa Retratos da Leitura, de 2024, cresce o interesse pela ficção entre leitores de 18 a 34 anos. O que muda não é só a quantidade de páginas viradas, mas o que se faz com elas depois.
Vídeos sobre personagens, teorias de fãs, finais surpreendentes e listas de indicações transformaram a leitura em assunto cotidiano. Para o pesquisador Gabriel Mattos, que estuda algoritmos e dinâmicas das plataformas, a “fofoca literária” virou moeda social. Em entrevista ao Publish News, ele aponta ainda um movimento aparentemente contraditório: quanto mais tempo conectadas, mais as pessoas desejam experiências offline.
O epicentro desse fenômeno é o BookTok. Até o início de maio de 2026, a hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 1 bilhão de visualizações. Títulos como “Vermelho, branco e sangue azul”, de Casey McQuiston, “Daisy Jones & The Six”, de Taylor Jenkins Reid, e Mentirosos, de E. Lockhart, mostram como um livro pode circular por redes, telas e conversas.
O mercado percebeu. Bárbara Bressanin, Content Manager do Skeelo, aplicativo de livros digitais, lembra que o livro hoje disputa atenção com vídeos, músicas, séries e jogos. Para ela, a literatura “não termina na última página, mas se transforma em conversa coletiva”. Entre os usuários mais jovens do app, romances, thrillers e fantasia lideram, ao lado de títulos ligados à cultura pop e aos circuitos de recomendação.
Na editora Seguinte, selo do Grupo Companhia das Letras voltado ao público jovem, a editora-executiva Nathalia Dimambro afirma que adaptações e lógicas entre plataformas são consideradas, mas não devem substituir processos históricos do setor. Para ela, um bom livro jovem fala com o leitor “de igual para igual”, e o desafio continua sendo ouvir quem lê.
Esse público lê, ainda, sob pressão. Estudar, trabalhar e se relacionar em meio a crises financeiras, pandemia e o ritmo do capitalismo neoliberal molda a forma como a geração se aproxima da ficção. Na TAG, um dos maiores clubes de assinatura de livros do país, cerca de 19% dos assinantes ativos são da Geração Z. Segundo a empresa, são jovens profundamente conectados que buscam no livro um espaço de desaceleração e presença.
Foi com esse perfil em mente que a TAG lançou, em abril de 2026, um clube de leitura voltado a essa faixa etária, com a influenciadora Lívia Reginato, a Liv, como embaixadora. O projeto gráfico, da ilustradora Beatriz Batistelli, aposta em cores vibrantes e em referências a descobertas, transições e construção de identidade. A meta declarada é ir além da leitura e fortalecer o sentimento de pertencimento.

A cultura da recomendação, porém, tem custos. As redes ampliaram a circulação dos livros e criaram novas comunidades, mas também podem repetir tendências e concentrar a atenção em poucos títulos e gêneros. A criadora de conteúdo Milena Souza, a Milena Enevoada, 29 anos, produz há mais de uma década sobre fantasia e terror e vê esse movimento de perto. Para ela, muitos leitores buscam experiências cada vez mais familiares e previsíveis. “Não queremos ficar desconfortáveis”, diz. No terror, isso significa fugir de narrativas que causam estranhamento, justamente um dos motores da boa ficção. “Precisamos lembrar que essas histórias não são nossas, não foram feitas sob medida”, completa.
A ressalva funciona como contraponto num mercado cada vez mais guiado pelo compartilhamento e pela validação coletiva. Se os jovens encontraram novas formas de descobrir livros e conversar sobre eles, o desafio agora talvez seja preservar a capacidade de se surpreender com o que ainda não aparece entre os mais recomendados do momento.