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Do pão francês ao sourdough: a mesa brasileira em transformação

Redação Culturize-se

Poucos alimentos têm a capilaridade do pão na mesa brasileira. Neste 16 de outubro, Dia do Pão, os números ajudam a medir uma intimidade que começa no café da manhã e atravessa o dia.

A Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip) calcula que mais de 50 milhões de pessoas passam por padarias diariamente. A cadeia da panificação, segundo a entidade, faturou mais de R$ 164 bilhões em 2025 e sustenta 2,6 milhões de empregos, 926 mil deles diretos. Em casa, a presença é ainda mais ampla: levantamento da Worldpanel, divulgado pela Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), aponta que os pães industrializados chegam a 97,6% dos lares do país.

O gosto, porém, é plural. Nas padarias, o pão francês é o campeão: de acordo com a Abip, são mais de 2 milhões de toneladas por ano, o equivalente a mais de 34% dos panificados vendidos. O pão de queijo vem em terceiro, com 417 mil toneladas anuais (7,05% do consumo). Nas prateleiras de supermercado, o pão de forma domina. Segundo a NielsenIQ, em dados reunidos pela Abimapi, o produto respondeu por 77,38% das 385 mil toneladas de pães industrializados vendidas no primeiro semestre de 2026, quando a categoria movimentou R$ 8,4 bilhões, alta de 1,1% sobre o mesmo período do ano anterior.

É nesse cenário de consumo massivo que o pequeno forno encontra espaço. Levantamento do Sebrae, com base em dados da Receita Federal, mostra que 2025 foi o ano de maior abertura de negócios do segmento: mais de 75 mil novas empresas de panificação e comércio de padaria, 26% a mais que as 59.590 registradas em 2024. Os dados mais recentes da Abip apontam 332.558 empresas ativas no setor em 2026, das quais 212.258 são microempreendedores individuais e 105.341 são microempresas. A base da cadeia, portanto, é formada sobretudo por pequenos negócios.

A própria Abip registra uma mudança no perfil dessas casas. Nos cinco primeiros meses de 2026, a produção própria respondeu por 70,59% do faturamento do setor, acima dos 67,91% de 2025 e dos 68,80% de 2024. A padaria, em vez de revender, volta a assar, e a ser vista como lugar de café, almoço e encontro, e não só de compra de pão.

Imagem gerada por IA

Nesse movimento entram os pães artesanais e de fermentação natural, que usam o levain, uma cultura de fermentos selvagens mantida pelo padeiro, em processos que podem levar até 48 horas. O Sebrae cita pães artesanais, fermentação natural, receitas sem glúten, sem lactose e veganas entre as inovações que atraem novos empreendedores, por exigirem investimento inicial relativamente baixo. O avanço do segmento aparece de forma indireta, nas estatísticas de abertura de empresas e no peso crescente da produção própria.

O cenário não é de expansão sem freios. Segundo a Abip, 2026 começou em ritmo mais moderado, sem retração do mercado. Em 2024, o setor havia crescido 10,9%, para R$ 153,3 bilhões, de acordo com o Instituto de Desenvolvimento das Empresas de Alimentação (Ideal). Em julho de 2025, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) apontou o maior nível de emprego da panificação em 15 anos.

Entre a praticidade do pão de forma, o ritual do francês quentinho e a lentidão deliberada do levain, o brasileiro não escolhe um lado. Come todos, e o mercado, ao que tudo indica, também segue crescendo em todas as direções.

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