Por Reinaldo Glioche
A performance do Partido Liberal nas urnas em 4 de outubro de 2026 talvez seja a grande manchete que a crônica política ainda não tenha dimensionado a contento. É evidente que a expressiva votação de Flávio Bolsonaro, cerca de 2,5 milhões de votos à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno, é um acontecimento de enorme relevância. Mas a força demonstrada pelo PL como partido, mais do que pelo candidato presidencial, pode ser ainda mais reveladora sobre o Brasil que emerge das urnas.
O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada individual da Câmara, e 19 senadores, o maior número já conquistado por uma legenda em uma única eleição para o Senado desde a Constituição de 1988. Nas Assembleias Legislativas e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, foram 212 eleitos. No Executivo estadual, o partido já garantiu seis governos no primeiro turno, número que ainda pode crescer com as disputas de segundo turno.
Não é, portanto, apenas uma eleição presidencial competitiva. É uma expansão simultânea do bolsonarismo pelas estruturas de representação política do país.
E há algo que esse mapa eleitoral parece dizer sobre a sociedade brasileira: o conservadorismo não apenas continua vivo como se mostrou capaz de organizar uma maioria parlamentar e uma expressiva força territorial.
Isso precisa ser compreendido para além das fronteiras brasileiras. A América Latina atravessa um ciclo de fortalecimento da direita, com diferentes características nacionais e trajetórias próprias. Argentina, Equador, Paraguai, Bolívia e Chile registraram, nos últimos dois anos, vitórias de forças identificadas com a direita ou com agendas conservadoras. O Brasil, com suas peculiaridades, passa a integrar de maneira mais evidente esse cenário.
O fenômeno brasileiro, entretanto, tem uma particularidade: a direita não cresceu somente como uma corrente ideológica. Ela encontrou no PL uma estrutura partidária capaz de transformar a popularidade do bolsonarismo em representação institucional. É aí que a eleição de 2026 ganha outra dimensão.

O 8 de janeiro e a disputa pela narrativa
O resultado também impõe uma reflexão incômoda sobre o 8 de janeiro de 2023.
O PL é o partido que abriga o bolsonarismo, e por definição rejeita a caracterização dos acontecimentos daquele dia como uma tentativa de golpe de Estado. Isso não significa, evidentemente, que a votação do partido possa ser convertida automaticamente em uma consulta popular sobre os acontecimentos de 8 de janeiro. Eleições são fenômenos multifatoriais e não permitem uma inferência tão direta. Mas seria igualmente equivocado ignorar o que o resultado revela sobre a recepção social dessa narrativa.
É possível sustentar, sem absolver os responsáveis por crimes cometidos naquele dia, que existe uma parcela relevante da sociedade que não assimilou a interpretação de que o 8 de janeiro tenha constituído, em si mesmo, uma tentativa violenta de abolição do Estado Democrático de Direito. Para esse segmento, o que houve foi vandalismo, depredação de patrimônio público, tumulto e uma série de crimes graves — mas não necessariamente o golpe de Estado que se tornou o eixo de boa parte do discurso político da esquerda e do governo.
Há uma distinção importante aí. Isso não significa negar a existência de articulações anteriores ao 8 de janeiro ou de iniciativas destinadas a contestar o resultado eleitoral. Significa reconhecer que a maneira como o episódio foi politicamente enquadrado não produziu consenso social. Ao contrário: pode ter produzido fricção.
A atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente nos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro, tornou-se também um dos elementos centrais da polarização brasileira. Algo agravado pela recente crise institucional na Corte ensejada pelo escândalo do Master. Circunstâncias exploradas com afinco pelo campo bolsonarista. O resultado eleitoral sugere que esse discurso encontrou audiência muito além do núcleo mais radical do eleitorado de Jair Bolsonaro.
É um erro, portanto, interpretar o voto no PL apenas como adesão automática ao bolsonarismo. Ele pode conter, simultaneamente, identificação ideológica, rejeição ao PT, oposição ao STF, insatisfação econômica, valores conservadores e simplesmente uma preferência política pela direita. É justamente essa multiplicidade que torna o fenômeno relevante.
Onde a esquerda perdeu a conexão
O outro lado da equação está na dificuldade do PT e da esquerda lulista de capturar os anseios sociais que atravessam o país.
O governo Lula chega ao fim do pleito podendo apresentar indicadores econômicos positivos, como inflação relativamente controlada e desemprego em patamar baixo. Mas indicadores macroeconômicos não se convertem automaticamente em sensação de prosperidade. Para uma parcela da população, especialmente aquela pressionada pelo endividamento e pelo custo de vida, a melhora estatística não necessariamente corresponde a uma percepção concreta de bem-estar.
E faltou ao governo uma narrativa capaz de transformar seus resultados em perspectiva.
A campanha tentou encontrar essa marca em diferentes momentos. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil foi uma delas. O fim da escala 6×1, outra. Mas ambas chegaram cercadas de disputas políticas e dificuldades de comunicação. O discurso de soberania nacional, por sua vez, mostrou-se excessivamente abstrato diante de uma população preocupada com questões muito mais concretas.
A comunicação governamental também produziu contradições difíceis de administrar. O caso das bets é emblemático: depois de regulamentar o mercado, o governo em uma canetada proibiu todo um mercado promovendo insegurança jurídica e sem se endereçar efetivamente ao problema de saúde mental que justificou, em certa medida, a iniciativa.
O problema, portanto, não é apenas o que o governo fez. É também como conseguiu, ou não conseguiu, explicar o que fez e por que faria diferente em um eventual quarto mandato de Lula.
Enquanto isso, a direita conseguiu trabalhar com uma ideia simples de futuro.
O bolsonarismo, com todas as controvérsias que carrega, compreendeu há algum tempo uma coisa fundamental da política contemporânea: narrativas simples, repetidas e emocionalmente identificáveis podem ser mais eficientes do que programas complexos. Segurança, liberdade, família, oposição ao sistema, crítica ao STF e rejeição ao PT formam um repertório que dispensa grandes explicações para ser reconhecido pelo eleitor.
A esquerda continua tendo dificuldade para construir uma narrativa igualmente compreensível.
O problema que o próprio PL cria
O tamanho do PL, entretanto, também produz uma questão que não pode ser ignorada.

É preciso reconhecer o histórico de confrontação institucional de Jair Bolsonaro e de setores de seu entorno. O eventual retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto em 2027 ocorreria em condições muito diferentes das encontradas pelo ex-presidente em 2019.
Bolsonaro precisou, durante boa parte de seu mandato, negociar sua governabilidade com o Centrão. Flávio Bolsonaro, caso vença o segundo turno, poderá chegar ao governo com uma base parlamentar muito mais robusta.
O PL não apenas cresceu. Ele tirou espaço de partidos tradicionais do Centrão.
Com 121 deputados federais e uma bancada projetada de 28 senadores, o partido terá uma posição inédita no Congresso. A possibilidade de participar de eleger as presidências das duas Casas amplia ainda mais esse capital institucional. Isso não significa que o PL possa aprovar sozinho qualquer matéria — em especial propostas de emenda à Constituição, que exigem três quintos dos votos em dois turnos em cada Casa —, mas altera substancialmente o ambiente de negociação política. E é justamente aí que surgem as apreensões.
Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria condições políticas muito diferentes das encontradas por seu pai. Poderia negociar com o Centrão a partir de uma posição menos dependente e, simultaneamente, contar com uma bancada própria muito maior.
Isso abriria espaço para uma agenda de reformas constitucionais. Quais reformas, com que conteúdo e com que consequências, dependeriam da composição final do governo e das alianças construídas no Congresso. Mas o simples fato de existir uma maioria conservadora potencialmente articulada em torno do novo governo muda o horizonte institucional.
Sobretudo porque o Brasil entraria em 2027 com uma tensão entre Executivo e Supremo Tribunal Federal já amplamente instalada.
O Brasil que as urnas desenharam
Não se trata, aqui, de dizer que esse cenário será necessariamente bom ou ruim. Tampouco de transformar a eleição em uma aprovação retrospectiva de tudo o que Jair Bolsonaro fez ou de tudo aquilo que o bolsonarismo defende.
Trata-se de reconhecer o que as urnas disseram.
E elas disseram algo bastante claro: o PL se tornou uma força nacional de primeira grandeza.
Em 2018, o então PR elegeu 33 deputados federais. Em 2022, o PL chegou a 99. Agora, são 121. Nas Assembleias, saiu de 43 eleitos em 2018 para 129 em 2022 e 212 em 2026. No Senado, a legenda elegeu apenas um senador em 2018, oito em 2022 e 19 agora.
É uma transformação que não pode ser explicada apenas pela popularidade de Bolsonaro. Ela revela a capacidade do bolsonarismo de criar uma máquina política, ocupar espaços institucionais e converter identidade ideológica em voto. Talvez seja esse o aspecto mais importante da eleição de 4 de outubro.
O Brasil pode chegar a 2027 com o bolsonarismo novamente no poder, mas desta vez acompanhado de uma força parlamentar que Jair Bolsonaro jamais teve. E com um Supremo Tribunal Federal desgastado e fragilizado institucionalmente.
O eleitor brasileiro sempre votou com o bolso, ou pelo menos, sempre se acreditou que votasse. A eleição de 2026 sugere que essa máxima precisa ser relativizada. O brasileiro também vota com valores, identidades, ressentimentos, expectativas e percepções de futuro. O bolsonarismo foi particularmente sagaz em compreender isso.
A esquerda, sobretudo o lulismo, parece ainda procurar a resposta repetindo fórmulas conhecidas. O resultado das urnas talvez seja, antes de qualquer outra coisa, uma advertência sobre o custo político de não compreender que o país mudou.