Redação Culturize-se
Após cinco anos longe dos palcos, a atriz carioca Taís Araújo retorna ao teatro com o espetáculo “Mudando de Pele”, que estreia nesta quarta-feira (3) no Sesc 14 Bis, na região central de São Paulo. A montagem, dirigida por Yara de Novaes, chega à capital paulista após uma temporada bem-sucedida no Rio de Janeiro.
Inspirado no premiado monólogo britânico “Shedding a Skin”, da dramaturga Amanda Wilkin, o espetáculo acompanha Mayah, uma mulher de 30 anos que decide fugir da própria realidade após terminar um relacionamento desgastado e pedir demissão de uma empresa racista. Ela aluga um apartamento tão pequeno quanto a vida que deixou para trás — e é nesse espaço estreito que se lança em uma jornada de amadurecimento e autodescoberta.
A produção rompe com narrativas que reduzem pessoas negras à violência do racismo. No lugar da dor ou da morte, o que vemos em cena é uma mulher em metamorfose. “Já se falou muito sobre morte e sofrimento. Está no nosso histórico. Mas a gente não é só isso”, afirmou Araujo em entrevista à Folha. “O absurdo da escravidão faz parte da nossa história, mas não define a gente. Eu me recuso a ser apenas isso.”
Filha de imigrantes, Mayah trabalha em uma empresa formada majoritariamente por funcionários brancos. A sensação de não pertencer a canto algum — nem ao ambiente corporativo, nem ao lugar de origem dos pais — é um relato frequente entre pessoas negras que ascenderam socialmente. A crise existencial da personagem brota das frestas desse não-lugar.
O estopim para a mudança acontece quando a empresa faz uma campanha publicitária pela diversidade, reunindo os poucos funcionários negros para criar uma fachada inclusiva. Após se recusar a participar, Mayah abandona o emprego e decide dar uma guinada na própria vida. “O olhar da personagem estava fechado e vai se ampliando aos poucos”, explica a atriz. “Ela não só percebe que pertence a uma comunidade, mas que precisa deixar de olhar para o próprio umbigo.”

Essa reconexão acontece por influência de duas mulheres de gerações diferentes: Kemi, uma colega de trabalho na faixa dos 20 anos, e Mildred, uma nonagenária jamaicana que amplia o entendimento de Mayah sobre o mundo. A convivência com Mildred se torna decisiva no processo de transformação da protagonista, abrindo espaço para reflexões sobre identidade, solidão e aceitação de si.
A cenografia espelha essa evolução. No começo, a ambientação é claustrofóbica e o figurino é grande demais, de modo que Mayah parece desajustada na própria pele. À medida que a vida se expande, o entorno também aumenta: a estrutura quadrada e ordenadora do primeiro ato dá lugar a uma espacialidade circular, inspirada na cosmogonia de povos africanos — para quem o tempo não é uma linha reta, mas uma espiral em que passado, presente e futuro se entrelaçam.
A trilha sonora reforça essa ancestralidade quando a musicista Layla dedilha o corá, instrumento da África Ocidental semelhante a uma harpa. Dani Nega, diretora musical, produz efeitos sonoros ao vivo com um notebook, unindo saber do passado e tecnologia do presente. “Todo o conceito da peça é baseado na filosofia africana”, pontua Araujo. “É um elemento que as pessoas muitas vezes nem sabem que está no espetáculo, mas que elas vão sentir de forma inconsciente.”
Por causa da presença das musicistas, a atriz prefere definir a peça como um monólogo coletivo. “Todo mundo trouxe uma contribuição real para esse espetáculo, então não seria justo dizer que é um solo só meu.”
Yara de Novaes, responsável por sucessos recentes como “Prima Facie” e “Lady Tempestade”, afirmou à Bravo! que está “muito honrada de ter sido chamada pela Taís pra dirigir esse espetáculo”. A diretora ressaltou ainda que todas as suas escolhas visavam chegar a um lugar de celebração. “A dor não é o ponto de partida. Pelo contrário. A peça mostra uma pessoa saindo daquele lugar de opressão e se libertando.”
Para Araujo, o teatro é um espaço regenerador. “Eu costumo dizer que o teatro é um grande professor. Se você se dedica, ele te devolve.” Tal como a Alice de Lewis Carroll, Mayah precisa diminuir para finalmente conseguir crescer.