Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Netflix acerta em cheio com "Os Donos do Jogo", série com potencial de ser um "Game of Thrones" brasileiro

Por Reinaldo Glioche

É inegável o apelo do jogo do bicho para a cultura folclórica brasileira. Prova disso foi o sucesso da série documental do Globoplay “Vale o Escrito” há dois anos. A Netflix reagiu com uma produção sofisticada e muito bem produzida pela Paranoid Filmes, responsável por produções como “Tremembé” e “DNA do Crime”, e capitaneada por Heitor Dhalia, um diretor de range notável que tem entre seus filmes os ótimos “À Deriva” (2009) e “O Cheiro do Ralo” (2007).

“Os Donos do Jogo” não é apenas é uma das melhores séries brasileiras da Netflix, como se subscreve como das melhores de 2025. O ritmo ágil, o roteiro inteligente, a fluidez entre estética e narrativa, e a combinação de ambientação verossímil com personagens cativantes e bem desenvolvidos eleva a qualidade da série para além do mero entretenimento.

O Rio de Janeiro é representado aqui não como terra sem lei, mas sob o domínio de um crime organizado prevalente, bem estruturado e ascendente ao tráfico de drogas e às milícias. É a versão brasileira da máfia siciliana e o argumento não se furta às analogias.

Fotos: Divulgação

Nessa primeira temporada somos apresentados a quatro famílias – e mais um punhado de personagens – que dominam os territórios da capital carioca. Uma dessas famílias, porém, os Moraes, oriundos de Campos, cidade do interior do Rio, ensaia um movimento para atuar na capital.

Jeferson (André Lamoglia), mais conhecido como Profeta, tem a ambição – que em determinado momento se transforma em ganância – de ascender na cadeia de poder do Bicho no Rio de Janeiro e dá o start na missão de maneira ambiciosa, roubando um carregamento de maquininhas da cúpula, grupo que manda e desmanda na cidade e reúne as principais lideranças mafiosas.

Ele acaba acolhido por Leila Fernandez (Juliana Paes), cujos interesses são ambíguos, mas essa inusitada parceria faz com que ele ascenda rapidamente na estrutura do crime. Leila é casada com Galego Fernandez (Chico Diaz), uma espécie de primeiro-ministro da cúpula.

Profeta e Leila querem ocupar um lugar na cúpula, desejo que também move Mirna Guerra (Mel Maia), que após o afastamento do pai Jorge Guerra (Roberto Pirillo) foi preterida por Suzana  (Giullia Buscaccio) e seu marido, Búfalo (Xamã), já que a estrutura do Bicho ainda é regida por preceitos patriarcais.

A série, no entanto, apresenta personagens femininas fascinantes que são as principais responsáveis pelas movimentações no tabuleiro. As quatro principais personagens, além das três citadas, há ainda Tamires (Aghata Marinho), filha de um apontador assassinado por Búfalo que se junta à trupe do Profeta, são destemidas, ousadas e jogam o long game, ao contrário dos homens que são impulsivos, violentos e influenciáveis. A exceção é Profeta, que demonstra rara aptidão para um universo em frequente transformação e em que as apostas são sempre altíssimas e a margem de erro quase nula.

“Os Donos do Jogo” é violenta quando precisa ser, mas resiste à glamourização do crime – embora se ambiente em um universo que mistura horror e glamour. É, também, uma série extremamente sensual sem ser apelativa. A obra encontra em seus personagens um motor dinâmico que move uma trama cheia de potencialidades.

A composição dramática lembra muito outra série em que o jogo de poder multidimensional agrega intrigas, violência e potencial de novas famílias introduzidas em temporadas subsequentes. Trata-se de “Game of Thrones”. “Os Donos do Jogo” parece ter potencial para ser um fenômeno parecido no contexto brasileiro.

Existe, indubitavelmente, sugestões para isso no curso dos episódios finais desse primeiro ano e dificilmente a Netflix resistirá a tentação de apostar na continuidade de algo tão bom e promissor.

Elenco espetacular

O trabalho do elenco é esplendoroso. Como protagonista, André Lamoglia transborda carisma e vivacidade na pele de um personagem sempre na ponta da navalha e que luta contra o impulso de ser bom em um mundo mau. Xamã, como seu antagonista, não deixa a peteca cair, mas no elenco masculino os grandes destaques são Chico Diaz, que afere a seu vilão a dose certa de tensão, sem prescindir de um registro cômico, equilíbrio que só os grandes admoestam, e Pedro Lamin, que como Nelinho, irmão e fiel escudeiro do Profeta, entrega uma atuação contida que se esmera nos silêncios e na sua presença imponente.

As atrizes são todas fora de série, mas Mel Maia talvez seja o grande destaque. Pouco levada a sério como intérprete, ela preenche sua Mirna de gana, tesão, confiança e um indefectível gosto pelo perigo.

Os predicados de “Os Donos do Jogo” são muitos, mas um elenco tão bem azeitado torna a experiência muito mais pulsante e irresistível.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.