Redação Culturize-se
No Japão, o branco não é apenas uma cor. É uma escala. É paz, purificação, leveza, silêncio e precisão. É também neve infinita, papel de amoreira, seda de avó e sal de santuário. A exposição “Shiro: uma escala de nuances”, shiro significa “branco” em japonês, está em cartaz na Japan House, em São Paulo. A mostra inédita e gratuita e se estende até 25 de outubro, no térreo da instituição, na Avenida Paulista.
A curadoria é da diretora cultural da JHSP, Natasha Barzaghi Geenen, e o ponto de partida veio de uma leitura. Durante o Clube de Leitura JHSP + Quatro Cinco Um, em junho de 2025, os participantes mergulharam em “O País das Neves” (1948), de Yasunari Kawabata, obra que descreve as vastas paisagens brancas do norte do Japão e o processo ancestral de alvejar tecidos sobre a neve. “Shiro não é fruto de um conceito específico, tem uma inspiração poética e abstrata”, explica Geenen. “O branco, enquanto junção de todas as demais cores, serve aqui como ponto de partida simbólico para pensar como o Japão carrega tantas nuances e sutilezas.”
Logo na entrada, o visitante se depara com uma tabela cromática que cataloga 19 tons de branco — apenas uma amostra das centenas de cores tradicionais do Japão. O recado é claro: o branco japonês não é monótono. É um arco-íris invertido, onde a diferença entre um tom e outro exige um olhar apurado; justamente o olhar do povo japonês, treinado ao longo de séculos para perceber as mínimas variações.

A exposição se divide em quatro núcleos, cada um dedicado a um elemento. No de “DePapel”, a instalação “Poem of life”, da artista Ayumi Shibata, impressiona: três metros de altura feitos de inúmeras folhas de papel cortadas na técnica do kiri-ê (corte de papel), amarradas entre si, com um espelho na base que multiplica a relação entre luz e sombra. A obra simboliza o desejo da artista por paz e harmonia mundial. Mas há também a ciência por trás da arte: o público poderá conhecer o processo de produção do Kurotani Washi, papel tradicional feito à mão, desde a colheita dos ramos de Kōzo (amoreira) até a finalização. Amostras de três fibras — Kōzo, Mitsumata e Gampi — estarão à mostra, revelando as matérias-primas que dão origem a este patrimônio imaterial.
No núcleo “Seda”, a artista Kaoru Hirano apresenta uma obra inédita e carregada de memória afetiva. Conhecida por desconstruir peças de vestuário em suas criações, Hirano utilizou um juban branco de seda — peça tradicional usada por baixo do quimono — que pertenceu à sua avó paterna, falecida em 2018. O resultado é a instalação “untitled-grandmother”, uma teia suspensa de quase quatro metros de diâmetro que reflete sobre laços familiares construídos e desconstruídos. A delicadeza do trabalho é acompanhada por amostras de casulos do bicho-da-seda, fios e tecidos da província de Gunma, referência nacional na produção de seda, além de um vídeo introdutório sobre a confecção.
O “Neve” transporta o visitante para o norte do Japão, onde os invernos rigorosos criam paisagens de branco aparentemente infinito. Para representar essa vastidão, a JHSP selecionou três fotografias de Snow Art do artista Tomohiro Kajiyama, além de um vídeo sobre seu processo de criação. Kajiyama, que se mudou para Hokkaido em 2018, desenvolveu um estilo autoral chamado “free-leg”: caminha sobre a neve como se fosse uma tela em branco, guiado apenas pela imaginação, sem ferramentas de medição, usando pequenos esquis. Cada passo compacta a neve, formando quilômetros de linhas que, vistas de cima, revelam desenhos complexos e efêmeros, com cerca de 100 metros quadrados cada. “Cada passo que ele dá representa sua filosofia de esculpir a própria vida com uma mentalidade positiva, mesmo diante das adversidades”, conta a curadora. As criações começam antes do amanhecer, no silêncio congelante, e podem se estender por vários dias.
Curiosamente, a neve é tão presente na vida japonesa que o país desenvolveu um glossário inteiro para descrevê-la — desde a neve fina como pó até a neve macia que lembra mochi (bolinho de arroz).

Por fim, o núcleo “Sal” revela uma contradição: apesar de ser uma nação cercada pelo mar, o Japão possui poucas condições naturais para a produção de sal. Por isso, desde tempos ancestrais, desenvolveu um método em duas etapas — concentração da água do mar em salinas e evaporação por fervura — que permanece em prática até hoje, mesmo com a industrialização. Além de tempero e conservante, o sal é objeto ritualístico no xintoísmo. A prática do morishio (ou morijio) consiste em criar pequenos montes de sal e deixá-los perto de entradas de casas, estabelecimentos ou santuários para atrair boa sorte e afastar maus espíritos. A mostra apresenta cinco tipos de sal de diferentes regiões do Japão, cada um com características distintas.