Por Reinaldo Glioche
O slogan de “Amores Materialistas” provoca: “Como escolher entre a vida que você deseja e o amor que você precisa?”. Trata-se de uma ponderação pertinente a muitas pessoas e é o conflito central que Lucy, personagem vivida com a melancolia millennial necessária por Dakota Johnson, se vê imersa.
Funcionária de uma agência de relacionamentos premium voltada para aqueles indispostos a mergulhar na loteria dos aplicativos de relacionamentos, ela se vê em um dilema. Escolher entre o que seu metiê classifica como um unicórnio, em um casting para lá de feliz, já que Pedro Pascal é o atual sweetheart da internet, ou um amor do passado vítima do desgaste de incompatibilidades de projetos de vida – figura encarnada pelo sempre inebriante Chris Evans.
Celine Song demonstra com seu segundo filme, o primeiro foi o sublime “Vidas Passadas”, que é especialista em fazer romances que desconstroem o romantismo. Aqui, as relações afetivas são commodities em um mercado em que os players estão cada vez mais solitários e a intimidade é um ativo em depreciação. A cineasta versa sobre como nos relacionamos como nossos próprios sentimentos e como eles se alinham aos nossos projetos de vida. É esse, afinal, o dilema da protagonista. O amor cabe em sua visão de mundo? A angústia de Lucy é sintoma de sua escolha ou fruto de seu questionamento?

O filme articula muito bem os clichês da comédia romântica para analisar esse mercado das relações e como ele contribui para um cinismo involuntário. O contraponto surge na figura de uma cliente de Lucy que sofre para conquistar um match. O amor romântico ficou circunscrito aos ingênuos? Ele deve nortear nossas escolhas? São reflexões que Song enseja no manejo dos conflitos do filme; sempre com diálogos inspirados e um texto que alija seus personagens de suas idealizações e os confronta com aspereza de suas escolhas. Tudo, porém, com muita generosidade e o genuíno interesse pelos arquétipos que eles representam.
“Amores Materialistas” é, também, uma sequência espiritual de “Vidas Passadas” no sentido de formular como nossas escolhas e desejos afetam nosso ideário afetivo e como respondemos na maturidade às idealizações passadas. É um filme ruminante das interjeições entre o “eu” e o “nós”, mas que enxerga fundamentalmente na evolução da percepção social das relações afetivas, sua matéria-prima.