Enquanto produções como “Duna” e “O Brutalista” excedem as duas horas, debate acerca da duração dos filmes, e seu impacto comercial, se avoluma com cineastas e público navegando por opiniões conflitantes
Redação Culturize-se

Nos últimos anos, a duração dos filmes tornou-se uma questão controversa, gerando debates entre cineastas, críticos e espectadores. Muitos cineastas adotam longas durações como meio de contar histórias expansivas, enquanto outros argumentam que a concisão é essencial para manter o engajamento do público. Esse debate aborda questões mais profundas sobre expressão artística, viabilidade comercial e as preferências em mutação dos espectadores. As opiniões variam amplamente — de quem vê filmes longos como indulgentes até aqueles que os consideram um espaço necessário para a narrativa.
Alexander Payne, diretor de filmes aclamados como “Sideways” e “Os Descendentes”, criticou abertamente a tendência de filmes excessivamente longos. Durante o Festival de Cinema de Middleburg, enquanto promovia sua obra mais recente, “Os Rejeitados”, Payne afirmou acreditar que “o cinema é uma busca constante pela economia”. Ele enfatizou a importância de fazer um filme o mais curto possível, sem comprometer sua integridade. Para Payne, mesmo quando a narrativa de um filme justifica uma longa duração, ele ainda deve buscar ser a “versão mais curta possível” de si mesmo.
“Existem filmes longos demais hoje em dia,” comentou o diretor americano, reconhecendo que até seus próprios filmes poderiam se beneficiar de uma edição mais enxuta. Ele citou exceções onde longas durações enriquecem a narrativa, como “O Poderoso Chefão Parte II” e “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, que descreveu como “filmes super ajustados de três horas e meia”. Seus comentários refletem uma abordagem pragmática: enquanto aprecia o mérito artístico de filmes longos, acredita que a narrativa não deve ser prolongada desnecessariamente. No entanto, a crítica de Payne é matizada. Ao examinar as tendências de duração, ele admitiu que seu próprio trabalho, “Os Rejeitados”, acabou mais longo do que o previsto. Com 133 minutos, ele brincou ao perceber que “ainda está um pouco longo”, sugerindo que mesmo cineastas defensores da concisão enfrentam desafios para encontrar o equilíbrio perfeito.
O falecido Roger Ebert abordou sucintamente o debate sobre a duração dos filmes em seu ensaio de 1992, “O Prazer de Quebrar a Barreira dos 120 Minutos”. Sua observação frequentemente citada — “Filmes ruins são sempre longos demais, mas filmes bons são ou muito curtos, ou na medida certa” — permanece relevante. As palavras de Ebert encapsulam a ideia de que a qualidade da narrativa de um filme, e não sua duração, determina seu sucesso. Embora o público possa reclamar de filmes de três horas, o insight de Ebert sugere que uma história bem elaborada pode justificar até mesmo longas durações.

Exemplos recentes reforçam essa ideia. Os filmes “Duna”, de Denis Villeneuve, com duração combinada superior a cinco horas, foram elogiados por sua profundidade narrativa e grandeza visual. O próprio Villeneuve desconsidera críticas sobre durações longas, enfatizando que “o espírito do material deve ser preservado”. Em entrevista ao The Times, ele destacou que filmes como “Oppenheimer” e “Duna: Parte Dois” atendem a um público jovem ansioso por “conteúdo significativo”. A perspectiva de Villeneuve alinha-se com a de Ebert: o público aceitará filmes longos se eles entregarem narrativas substanciais e envolventes. Contudo, nem todos os filmes longos ressoam da mesma forma. “Avatar”, de James Cameron, e “Cruzada”, de Ridley Scott, demonstram resultados contrastantes. Enquanto a exposição prolongada em “Avatar” gerou reações mistas, a versão do diretor de “Cruzada” (45 minutos mais longa que a versão original) transformou um “desperdício sem propósito” em uma obra épica amplamente aclamada. Esses exemplos destacam a importância do ritmo e da coerência narrativa na percepção do público.
Desafiando as normas de duração
Brady Corbet, diretor de “O Brutalista”, adota longas durações como uma escolha artística, rejeitando a ideia de que filmes devem se conformar a comprimentos convencionais. Ao estrear seu drama histórico de três horas e meia no Festival de Veneza, Corbet descreveu críticas a filmes longos como “bobagem”, comparando-as a objeções a um livro de 700 páginas em vez de 100 e provocou: “Por que não há problemas com filmes de heróis durando as mesmas três horas”?”
Seu filme narra 30 anos na vida de um arquiteto húngaro-judeu, explorando temas de sobrevivência, arte e resiliência. Para Corbet, a duração expansiva é essencial para capturar a profundidade de sua história. Ele argumenta que o cinema deve transcender limitações arbitrárias, afirmando: “Deveríamos estar além disso. É 2024.” Sua perspectiva destaca a tensão entre liberdade artística e expectativas do público, sugerindo que os cineastas devem priorizar a narrativa em vez de restrições de duração.
Enquanto cineastas como Corbet defendem a liberdade criativa, os proprietários de cinemas enfrentam desafios práticos impostos por filmes longos. Durações extensas reduzem o número de sessões diárias, impactando a receita e a eficiência operacional.
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Equilibrando arte e comércio
A tensão entre visão artística e considerações comerciais não é nova. Hollywood lida há muito tempo com o equilíbrio dessas prioridades, como evidenciado pela popularidade duradoura de filmes épicos como “Ben-Hur” e “O Retorno do Rei”. Contudo, tendências recentes sugerem uma desconexão crescente entre filmes longos e desempenho nas bilheterias. Filmes de alto orçamento como “Indiana Jones e o Chamado do Destino” e “The Flash” tiveram desempenho abaixo do esperado, apesar de suas longas durações, levantando questões sobre se o público está se cansando de blockbusters longos. Conforme um executivo veterano de estúdio, os estúdios frequentemente exigem contratualmente que diretores entreguem filmes com menos de duas horas. Porém, essas exigências são frequentemente ignoradas, especialmente quando lidam com cineastas estabelecidos. Plataformas de streaming como Netflix complicaram ainda mais a questão, dando liberdade criativa aos diretores para produzir conteúdo de longa duração, como visto em “O Irlandês” e “Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese. O advento do streaming empoderou os diretores, mudando o equilíbrio de poder em relação aos estúdios tradicionais
À medida que o debate sobre durações continua, a indústria enfrenta uma questão crucial: como os cineastas podem reconciliar a ambição artística com as preferências do público e as realidades comerciais? A resposta pode estar em redefinir como o sucesso é medido. Para cineastas como Payne e Corbet, o foco está na narrativa — independentemente de levar 90 minutos ou três horas. Para proprietários de cinemas, o desafio é encontrar maneiras inovadoras de acomodar filmes longos sem sacrificar a rentabilidade. Em última análise, o debate destaca a natureza em constante evolução do cinema. Enquanto alguns espectadores podem desejar narrativas concisas, outros estão dispostos a investir seu tempo em histórias épicas.