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“O Brutalista” deflagra debate acerca do uso de inteligência artificial no cinema

Reinaldo Glioche

O uso de inteligência artificial no cinema voltou a gerar debates acalorados, desta vez em torno do aclamado “O Brutalista”, de Brady Corbet. O longa, estrelado por Adrien Brody e Felicity Jones como refugiados húngaros que emigram para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, foi celebrado por suas conquistas artísticas, incluindo três Globos de Ouro e grande expectativa para o Oscar. No entanto, a revelação de que a tecnologia de IA foi usada na pós-produção para aperfeiçoar os sotaques húngaros dos protagonistas gerou críticas e levantou questões éticas sobre o papel da IA no cinema.

A controvérsia começou quando o editor de “O Brutalista”, Dávid Jancsó, discutiu o processo de pós-produção em entrevista ao Red Shark News. Jancsó, falante nativo de húngaro, revelou que a equipe utilizou ferramentas de IA da empresa ucraniana Respeecher para ajustar sutilmente a pronúncia de certas vogais e letras húngaras nas performances de Brody e Jones. A decisão visava garantir precisão linguística e autenticidade, considerando que o húngaro é amplamente reconhecido como uma das línguas mais desafiadoras para falantes não nativos.

Cena de O Brutalista
Foto: Divulgação

Leia também: “O Brutalista” é uma crítica à América por meio da arquitetura

“Os desempenhos de Adrien e Felicity são completamente deles”, esclareceu Corbet em comunicado ao The Hollywood Reporter nesta segunda (20). “Eles trabalharam durante meses com a preparadora de dialetos Tanera Marshall para aperfeiçoar seus sotaques. A tecnologia inovadora da Respeecher foi usada apenas na edição do diálogo em húngaro, especificamente para refinar certas vogais e letras. Nenhuma língua inglesa foi alterada. Foi um processo manual, realizado por nossa equipe de som e pela Respeecher na pós-produção. O objetivo era preservar a autenticidade das performances de Adrien e Felicity em outra língua, não substituí-las ou alterá-las, sempre respeitando ao máximo o ofício.”

O uso de IA em “O Brutalista” também foi aplicado além do refinamento de diálogos. Uma sequência no final do filme empregou IA generativa para inspirar uma série de desenhos arquitetônicos e edifícios atribuídos ao personagem de Brody, o arquiteto fictício László Tóth. No entanto, os desenhos finais foram feitos à mão, destacando a dependência do filme na habilidade artística humana.

Apesar das explicações, a revelação do papel da IA no filme gerou reações negativas online. Críticos argumentam que alterar performances com IA, mesmo por questões de precisão linguística, diminui a autenticidade do trabalho dos atores e estabelece um precedente preocupante. Um usuário na plataforma X (antigo Twitter) comentou: “É um caminho perigoso premiar Adrien Brody sabendo que seu sotaque foi editado com IA. Alterar uma performance assim deveria desqualificar automaticamente alguém desses prêmios.” Outro classificou o uso de IA tanto para sotaques quanto para designs arquitetônicos como “absolutamente patético.”

Por outro lado, defensores alegam que os ajustes foram mínimos e não comprometeram a carga emocional das atuações. “Não me emocionei pelo sotaque; emocionei-me pelo modo como [Brody] transmitiu emoção”, destacou um espectador. Jancsó enfatizou que o processo foi mais semelhante à edição de diálogos do que à manipulação criativa. “Fomos muito cuidadosos em preservar as performances. Basicamente substituímos letras aqui e ali. Isso poderia ser feito no ProTools, mas tínhamos tanto diálogo em húngaro que precisávamos acelerar o processo, ou ainda estaríamos na pós-produção.”

A polêmica sobre o uso de IA em “O Brutalista” também gerou comparações com outros filmes. Por exemplo, a atuação de Rami Malek como Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody”, vencedora do Oscar, utilizou uma combinação de sua voz e gravações do cantor cristão Marc Martel para recriar o canto de Mercury. De forma semelhante, a performance de Angelina Jolie em “Maria Callas” mesclou sua voz com a da cantora de ópera Maria Callas. Esses exemplos mostram que o aprimoramento de performances na pós-produção não é inédito, embora a introdução da IA adicione uma nova camada de complexidade.

A Respeecher, empresa ucraniana responsável pela tecnologia usada no longa, já colaborou anteriormente com a Lucasfilm para recriar as vozes de personagens icônicos, incluindo Darth Vader (James Earl Jones) e uma versão jovem de Luke Skywalker (Mark Hamill) em “The Mandalorian”. Esses projetos também geraram debates sobre as implicações éticas do uso de IA na preservação e replicação de performances.

Outros filmes de 2024, como “Alien Romulus”, “Furiosa” e “Emilia Pérez” também fizeram uso de IA em pós-produção. No entanto, o grau de revolta experimentado por “O Brutalista” talvez esteja associado à sua condição de favorito ao Oscar.

Corbet, conhecido por seu compromisso com o cinema analógico, destacou que o uso de IA em “O Brutalista” não substituiu o esforço humano, mas o complementou. O filme, rodado na Hungria em formato VistaVision 35mm, foi produzido com um orçamento modesto de menos de US$ 10 milhões. “Esse é um filme sobre a complexidade humana, e cada aspecto de sua criação foi impulsionado pelo esforço, criatividade e colaboração humanos. Estamos incrivelmente orgulhosos de nossa equipe e do que conquistamos aqui”, afirmou Corbet.

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