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ONGs lutam para semear cultura em comunidades carentes

Stella Teixeira

Sabemos que em grandes comunidades periféricas de diversas cidades existem a falta de políticas públicas para os moradores de qualquer faixa etária, e são nesses locais que os projetos sociais ganham força. É nessa conjuntura que muitos jovens conhecem a arte e mudam a perspectiva sobre a vida e a importância das ONGs nesse processo.

A Associação Mutirão, que já existe há 62 anos, está localizada na comunidade dos Filhos da Terra, na zona norte de São Paulo, atende 540 crianças, adolescentes, idosos e as famílias, sendo também um ponto de distribuição de entrega de leite para famílias carentes. A organização responde ao Marco regulatório das organizações da Sociedade Civil do Terceiro Setor, sendo necessária a prestação de todas as contas mês a mês por meio de Certidões Negativas de débito.

Com uma parceria de 90% com o poder público, para custear as despesas de cada um dos quatro serviços, a Associação conta também com doações de pessoas físicas e jurídicas, voluntários e trabalho em rede. Outra maneira de captar recursos são por meio de jantares com empresários da região, festas temáticas e bingos que muitas vezes são realizados com recursos captados por voluntários, bazares e a arrecadação de cupons fiscais; existe, também, a arrecadação através dos editais e alguns prêmios divulgados pela Secretária do Desenvolvimento Social e Secretária de Educação.

Durante nossa conversa com a gerente institucional Jady Dantas, que está na Associação há 25 anos, ela nos conta um pouco sobre como os jovens podem ser beneficiados a curto e a longo prazo: “hoje temos grandes exemplos de jovens que entraram aqui sem nenhuma perspectiva de crescimento, e que hoje vivem da arte, mas também se desenvolveram como grandes profissionais de outras áreas”.

Voluntários e assistidos pela Associação Mutirão | Foto: reprodução

Os serviços promovem ações importantes com jovens e a família dos atendidos, como levá-los para usufruir de espaços públicos voltados para cultura como a Fábrica de Cultura, no Jaçanã, e o Céu Jaçanã que sempre exibem festivais culturais e oficinas de teatro, música, fotografia, etc. Passeios culturais como apresentações “O Fantasma da Ópera” no Teatro Renault, Cirque du Soleil, teatros na Augusta, entre outros espetáculos culturais que, em sua grande maioria são inacessíveis para esse público, mas que graças aos projetos, consegue conhecer esses espaços culturais.

Dentro de cada projeto, são exercidas diversas oficinas culturais para os jovens que facilitam o desenvolver de novas habilidades, pouco difundidas, que variam desde danças regionais, teatro, balé e dança de salão. Jady, recorda um episódio sobre como o exemplo pode transformar a vida dos jovens: “lembro de ter levado uma criança que a mãe dela era minha funcionária para uma apresentação de balé da minha filha que fazia aulas em uma casa cultural; e ela se apaixonou pelo balé. Na outra semana ela se inscreveu para fazer aulas. A minha filha não continuou, mas ela seguiu firme e virou bailarina profissional pelo Teatro Municipal de São Paulo. Sempre quando estava de férias, ela se apresentava às crianças da Associação, o que consequentemente servia como um exemplo para as crianças e para mim que conhecia ela desde muito pequena”.

Culturize-se então quis saber de uma lembrança de momento especial onde a arte prevaleceu e a entrevistada nos contou que a Secretaria de Assistência Social promove todos os anos o show de talentos reunindo todos os projetos sociais que são conveniados na região. 

A Associação então contratou o oficineiro Thiago Cohen que deu aulas de Carimbó (dança regional do Norte do Brasil), para 40 jovens: “Ele foi nosso oficineiro de dança para o evento do show de talentos, apresentando em forma de dança a história do Carimbó e foi muito emocionante de ver ele no meio dos jovens dançando, e como ele estava bem, mas acima de tudo, como aquele jovem que era fechado, com dificuldade de se relacionar com os outros, hoje virou oficineiro de jovens de 10 a 14 anos sendo aplaudido de pé por todos os serviços e a supervisão indo parabenizar pela apresentação. Eu não poderia ter uma memória mais feliz do que essa”.

Fazer o bem faz bem

Os projetos sociais podem contribuir para a vida de cada jovem da comunidade de muitas maneiras. O jovem Thiago Cohen participou da nossa entrevista sobre os benefício de ter projetos sociais nas comunidades e como eles contribuem para a formação do cidadão. “Os projetos contribuem na emancipação da juventude, dessas crianças, dos adultos, dos idosos para que eles reflitam também sobre o impacto deles no mundo. Isso se relaciona também com os caminhos que a gente pode seguir para conseguir realizar”.

Jady Dantas completou sobre essa sociabilização tão importante na vida dos jovens e em especial de Cohen. “O Thiago foi nosso aluno até os 16 anos, descobriu o teatro na escola e se apresentou em diversas ocasiões ainda adolescente; logo depois ele quis montar peças de teatro durante as atividades socioeducativas. Quando mais velho, cursou Dança na Faculdade Federal da Bahia, recentemente acabou de começar o mestrado em Dança também na UFBA. Entendo que trazer a cultura através da arte como a dança, teatro, música ou outros estilos pode contribuir e muito para formação do cidadão, e o Thiago é um exemplo claro disso”.

Thiago Cohen em ação | Foto: arquivo pessoal

Mas e os benefícios a longo prazo? Quais seriam? Essas questões são as mais fáceis de serem respondidas, quando olhamos para atores globais como Babu Santana; Thiago Martins; Marcello Melo Junior; todos ex-alunos de um projeto social chamado “Nós do Morro”, um grupo de teatro na comunidade do Vidigal no Rio de Janeiro. Mas podemos olhar também para os jovens que não são “globais”, mas que atuam diretamente com a cultura dando oficinas nas fábricas de cultura, ou estão Brasil afora vivendo unicamente da arte.

Cohen comenta sobre como a arte trouxe novos ares, vivências, trocas, experiências em regiões como Natal em Rio Grande do Norte, Bonito em Mato Grosso, ou países da Europa: “A dança me possibilitou conhecer outros lugares. Acho que sempre foi um desejo grande poder adentrar outros espaços. A dança me levou para Espanha, França, Alemanha… A dança me levou tanto para o Brasil, para lugares que eu nunca havia ido. A dança me possibilitou conhecer pessoas”.

Mas nem só de viagens para dançar o artista conseguiu com a sua dança. Thiago concorreu recentemente ao Prêmio Jabuti de Literatura com o seu livro independente “Pequena Coleção de Insignificâncias”. “Esse livro está entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura, o prêmio mais importante do Brasil; é uma conquista importante”.

A promoção de cultura, arte e coletividade influencia diretamente na qualidade de vida de jovens, e os auxiliam a tomar novos rumos, se descobrirem como pessoas, como cantores, dançarinos e artistas, pois podemos notar como o trabalho social de fomentar a cultura pode ser enriquecedor e gratificante para quem um dia se viu sem rumo certo, que se encontrou e pode ajudar outros a fazerem o mesmo.

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