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Quando a poesia vira corpo, voz e questionamento

Redação Culturize-se

Há livros que nascem como obras, outros como diagnósticos de uma época, e há aqueles que se instalam no cruzamento entre arte e experiência, exigindo do leitor não apenas atenção, mas coragem. “Vira homem!”, de Igor Marcondes, publicado pela Afluente Editora, pertence a essa última categoria: é menos um livro de poemas do que um campo de batalha entre palavras, identidades e silêncios.

Ao escolher a poesia concreta como linguagem para pensar os dilemas do ser gay no Brasil contemporâneo, Marcondes não recorre a uma tradição por puro experimentalismo estético. Ele se apoia na velocidade da forma, na fragmentação gráfica e na potência visual para traduzir um tempo em que a comunicação é instantânea e, paradoxalmente, carregada de ruídos. Como ele próprio afirma, uma palavra estática não era suficiente — era preciso deslocar sílabas, criar choques, reinventar sentidos. O resultado é uma poesia que não se acomoda no papel: ela pulsa, incomoda, ri de si mesma, ironiza o preconceito e aponta fissuras dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+.

A herança de Vladímir Maiakóvski e dos formalistas russos, filtrada pelos concretistas brasileiros, ecoa aqui como convite e desafio. Mas se Augusto e Haroldo de Campos ou Décio Pignatari propunham o poema como objeto autônomo, fechado em sua materialidade, Marcondes reivindica o contrário: o poema como organismo vivo, em aberto, que só encontra sentido ao ser atravessado pelo leitor. Há, portanto, uma recusa da clausura estética em favor de uma poesia que se quer coletiva, comunitária, em que sarcasmo e comicidade funcionam como dispositivos de aproximação.

O prefácio de Ikaro Kadoshi toca nesse ponto: “Vira homem!” é “filho da provocação” e “sabotador do mundo”. Trata-se de subverter a palavra contra si mesma, obrigá-la a reconhecer a ignorância que carrega em certas combinações, e a revelar sua potência de afeto em outras. Não é pouco. Num país em que a homofobia insiste em se manifestar tanto nas ruas quanto no discurso, desmontar frases, inverter sentidos e reconfigurar ordens é também um gesto político. É expor como o idioma pode ser arma de exclusão, mas também ferramenta de reinvenção.

Foto: Divulgação

Essa reinvenção se articula em torno de uma pergunta central: o que significa “ser homem” quando a masculinidade, tal como aprendemos a reconhecê-la, é quase sempre um exercício de violência simbólica ou física? Marcondes não oferece respostas definitivas. Ele propõe, antes, um espaço de suspensão, em que identidades são questionadas, tradições desmontadas, desejos expostos em suas contradições.

Os poemas abordam desde descobertas sexuais até fissuras internas da própria comunidade LGBT+, sem a pretensão de harmonizar tensões. Ao contrário: a tensão é motor criativo, é aquilo que permite ao autor afirmar, ao fim do processo, que a capacidade humana de reconstrução é ilimitada. E se há algo de revolucionário nisso, como ele sugere, é porque essa reconstrução implica uma abertura radical ao outro — ao leitor, à comunidade, ao próprio idioma.

Ao nos lembrar que as palavras carregam em si o poder de excluir e de acolher, Igor Marcondes também nos obriga a reconsiderar aquilo que guardamos dentro de nós: o peso de um idioma que nos formou e a possibilidade de reinventá-lo.

Ler “Vira homem!” é aceitar esse jogo de cortes e reconstruções. É reconhecer que, se a poesia é capaz de despertar emoção e incômodo, ela também é capaz de nos devolver a esperança de que ainda podemos reinventar o mundo a partir da palavra.

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