Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Trevor Noah vai da sátira à terapia no ótimo "Alegria na Tristeza"

Por Reinaldo Glioche

Trevor Noah é um daqueles comediantes profundamente enraizados no circuito norte-americano: uma figura central nos Estados Unidos, mas ainda com alcance internacional mais restrito. À frente do “The Daily Show” por sete anos, um dos programas mais politicamente engajados da televisão, ele acumulou controvérsias. A mais recente delas, porém, nada tem a ver com o programa e foi catalisada por sua atuação como host do Grammy. Como era de se esperar, piadas direcionadas a Donald Trump não passaram despercebidas: o presidente reagiu de forma virulenta em sua própria rede social, a Truth Social.

Essa efeméride, que poderia soar episódica, funciona como ponto de partida para “Alegria na Tristeza”, seu novo especial na Netflix. O título, aliás, não é apenas um recurso de efeito: sintetiza a tensão central do espetáculo. A partir de uma equação emocional difícil — encontrar leveza em meio ao colapso — Noah constrói um material que ultrapassa a sátira política. Ainda assim, a piada envolvendo Trump, com contornos absurdos como uma invasão alienígena, é exemplar: espirituosa, ela captura tanto o estado de confusão moral e cultural dos Estados Unidos quanto traços essenciais da persona pública do presidente norte-americano.

Mas o especial não se limita a esse registro. Noah desloca o foco para experiências pessoais e reflexões mais íntimas, como quando relata ter sido descrito por sua psicóloga como “undateable”, alguém incapaz de sustentar um relacionamento amoroso. A partir de episódios como esse, ele articula observações mais amplas sobre identidade, pertencimento e propósito. Um momento-chave surge em sua visita ao Museu da Cultura Afro-Americana, onde se depara com a pergunta: quem você é quando a história o convoca?

Foto: Divulgação

É nesse movimento que o especial encontra sua densidade. Noah propõe que o macro não anula o micro — que, mesmo em meio a crises sistêmicas e à sensação de vertigem global, pequenas conquistas individuais persistem e merecem reconhecimento. Ainda que essas ideias por vezes se percam em um fluxo denso de referências e inquietações, elas revelam o núcleo de seu projeto: organizar o caos emocional contemporâneo sem recorrer à agressividade.

O humor de Trevor Noah se destaca justamente por isso. Ele é incisivo sem ser hostil, analítico sem perder a leveza. Consegue expor fragilidades humanas com gentileza e, ao mesmo tempo, provocar riso genuíno. Em seu quinto especial para a Netflix, atinge talvez seu trabalho mais bem estruturado: o ritmo é preciso, a escrita é consistente e a proposta, ambiciosa. “Alegria na Tristeza” funciona tanto como sátira política quanto como exercício de introspecção — um convite simultâneo ao riso e ao reconhecimento.

Isso pode te interessar

Saúde

Ganho de peso na juventude eleva risco de morte precoce

Artes

Definidos os curadores da 37ª Bienal de São Paulo

Literatura

Brasil tenta incrementar cultura leitora em meio a distrações

Marketing

Heineken aposta em corrida como antídoto à vida algorítmica em nova campanha

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.