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Brasil tenta virar página na cultura leitora entre distrações digitais e políticas públicas

Redação Culturize-se

O brasileiro quer ler, mas a vida contemporânea não colabora. Uma pesquisa inédita realizada pela Amazon Kindle em parceria com a One Poll, entre fevereiro e março de 2026, revela que adultos leitores no país perdem cerca de sete minutos por sessão de leitura relendo e reprocessando trechos. Para quem lê quatro vezes por semana, o prejuízo acumula mais de 25 horas ao ano — o equivalente a mais de um dia inteiro de impacto desnecessário na experiência com livros. As causas são conhecidas: distrações, cansaço visual e formatações densas transformam o ato de ler em uma batalha contra o próprio cotidiano.

Os números da pesquisa “Meu Kindle, meu jeito”, conduzida com dois mil brasileiros maiores de 18 anos, expõem uma ferida pouco discutida. Entre os adultos que relêem trechos, 30% afirmam que isso os faz sentir menos confiantes, enquanto 22% dizem já ter abandonado livros que estavam gostando por considerarem a leitura exigente demais. Livros inacabados se tornam, para muitos, fonte silenciosa de frustração em vez de motivação. A perda de confiança, no entanto, raramente é compartilhada abertamente. Diferentemente das dificuldades de alfabetização infantil, os desafios de leitura na vida adulta permanecem largamente invisíveis, o que dificulta qualquer adaptação coletiva.

O problema se intensifica entre os mais jovens. Para 75% dos entrevistados da Geração Z, a frustração bate quando as ferramentas de leitura não acompanham a forma como leem hoje. Outros 72% afirmam que é mais difícil sustentar a leitura diante de distrações constantes e múltiplas demandas. A leitura deixou de ser um ato contínuo e longo para se fragmentar em momentos curtos ao longo do dia. Pequenas interrupções, perder o ponto da leitura, reler um parágrafo, ter dificuldade para retomar a concentração, corroem o prazer da experiência.

Foto: Pixabay

Os brasileiros, porém, não desistem. Adaptam. A pesquisa mostra que 38% dividem a leitura em sessões mais curtas; 44% relêem sem se pressionar; e 25% escolhem intencionalmente formatos ou ambientes mais fáceis de conciliar com a rotina. Quando os ambientes de leitura reduzem barreiras, o impacto é mensurável: entre quem conhece recursos de personalização digital, 44% dizem ler por mais tempo quando o texto é mais fácil de acompanhar; 26% se sentem mais confiantes; e 27% ficam mais propensos a concluir livros. A conclusão é clara: adultos não precisam de mais motivação para ler, precisam de possibilidades de adaptação.

Resposta institucional

Enquanto a indústria privada mapeia essas fricções, o governo federal aposta em uma resposta institucional de longo prazo. Na quinta-feira (23), o Ministério da Cultura (MinC) e o Ministério da Educação (MEC) assinaram a portaria interministerial que institui o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) para o período de 2026 a 2036. A cerimônia, realizada no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), em Brasília, contou com a presença do presidente Lula, do ministro da Educação, Leonardo Barchini, e da ministra da Cultura, Margareth Menezes.

O PNLL não é novato. Criado em 2006, no primeiro governo Lula, o plano se consolidou como política de Estado, transcendendo gestões para se tornar pacto social construído por educadores, escritores, bibliotecários e sociedade civil. Em seus ciclos iniciais de maior mobilização, o índice nacional de leitura saltou de 1,8 para 4,7 livros por habitante ao ano. Agora, a meta é elevar o percentual de leitores de 47% para 55% da população até 2035, com foco na redução do custo do livro e na expansão de livrarias no interior.

“O PNLL é uma realidade ativada pela sociedade e pelos governos. O livro e a leitura são vacinas contra a desinformação e contra a deterioração intelectual que o consumo superficial de conteúdos digitais pode causar”, afirmou Margareth Menezes. A ministra reforçou o compromisso de fortalecer o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas com acervos que promovam a “bibliodiversidade” nacional.

Leia também: Nova biblioteca digital do MEC oferece clássicos e best-sellers sem custo para o leitor

O plano está estruturado em quatro eixos: Democratização do acesso, Fomento à leitura e Formação de mediadores, Valorização institucional e Desenvolvimento da economia do livro. Uma inovação do novo ciclo é a inclusão do direito à escrita criativa como prática central, especialmente em territórios periféricos, quilombolas e indígenas. A meta de acessibilidade prevê ainda que todas as bibliotecas disponham de acervos em braille, libras e audiolivros.

Fabiano Piúba, secretário de Formação, Livro e Leitura do MinC, definiu o PNLL como “bússola estratégica” para converter o desafio de formar uma nação leitora em metas palpáveis. “Precisamos tornar a leitura visível na agenda política e social, pois estaremos fadados ao fracasso econômico se não ampliarmos o domínio da escrita entre nossos cidadãos”, alertou.

O desafio é imenso. Enquanto algoritmos disputam a atenção dos brasileiros em telas iluminadas, livros físicos e digitais competem por minutos cada vez mais escassos. A pesquisa da Amazon Kindle e o relançamento do PNLL, cada um a seu modo, reconhecem a mesma verdade: ler no Brasil exige mais do que vontade — exige estratégia, adaptação e, cada vez mais, políticas que tornem o livro item essencial na “cesta básica” do cidadão.

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