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Arte indígena amazônica ocupa Nova York em mostra sobre memória, cosmologia e resistência

Redação Culturize-se

A Galeria David Nolan, em Nova York, apresenta a exposição Riverlines, mostra que coloca em diálogo três gerações de artistas indígenas amazônicos e propõe uma reflexão sobre memória, território, cosmologia e resistência cultural. Reunindo obras de Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu, a exposição evidencia como saberes ancestrais continuam vivos e em constante transformação, atravessando diferentes épocas e linguagens artísticas.

Com curadoria de Simon Watson, Riverlines reúne pinturas, desenhos e trabalhos realizados em casca de árvore, estabelecendo conexões entre as tradições dos povos Yanomami, Tikuna, Tariana e Tukano. Mais do que uma reunião de obras, a mostra busca destacar genealogias artísticas frequentemente ausentes das narrativas dominantes da arte moderna e contemporânea, ao mesmo tempo em que insere essas produções nos debates globais sobre mudanças climáticas, extrativismo e direitos indígenas.

A artista Kuenan Mayu e o curador Simon Watson | Fotos: Diulgaação

A exposição apresenta um panorama amplo da produção dos três artistas. Entre os destaques estão dezesseis pinturas de 1964 de Chico da Silva, além de trabalhos realizados nas décadas de 1970 e 1980. Também integram a mostra um conjunto de pinturas de Joseca Yanomami inspiradas nas visões cosmológicas de seu povo e vinte obras recentes de Kuenan Mayu, que utiliza pigmentos naturais amazônicos aplicados sobre a tradicional casca de tururi.

A artista mais jovem da exposição, Kuenan Mayu, nascida em 2003 na comunidade de Feijoal, às margens do rio Solimões, representa uma nova geração de criadores indígenas que articulam tradição e experimentação. Descendente dos povos Magüta (Tikuna), Tariana e Tukano, ela desenvolve pinturas povoadas por seres híbridos — parte humanos, parte animais, parte espíritos — que desafiam categorias fixas e expressam uma visão de mundo baseada na transformação contínua.

Sua produção dialoga diretamente com a cosmologia Magüta, especialmente com os mitos ligados ao Rio Eware e aos encantados, figuras centrais na cultura Tikuna. Ao utilizar a casca de tururi, material empregado em práticas rituais tradicionais, a artista reforça a relação entre corpo, natureza e espiritualidade, transformando a própria superfície da obra em um espaço de passagem entre diferentes mundos.

Se Kuenan representa o futuro dessas tradições, Chico da Silva ocupa um lugar fundamental em sua história. Nascido em 1910 no Acre e reconhecido como um dos artistas brasileiros mais importantes do século XX, ele desenvolveu uma linguagem visual singular, marcada por serpentes, aves, peixes e criaturas fantásticas inspiradas nas mitologias amazônicas.

O centro da exposição é a obra Serpente da Serra Luminosa, criada para a Bienal de Veneza de 1966. A pintura sintetiza a capacidade do artista de transformar referências da floresta em universos visuais complexos e vibrantes. Embora frequentemente comparado a nomes como Joan Miró e Paul Klee, Chico da Silva construiu uma trajetória baseada em cosmologias indígenas, oferecendo uma perspectiva distinta das tradições modernistas europeias.

Já Joseca Yanomami, nascido em 1971 em uma comunidade de Roraima, desenvolve uma obra profundamente conectada ao universo espiritual Yanomami. Filho de um xamã, ele transforma em imagens os cantos, sonhos e narrativas que escuta desde a infância. Seus desenhos e pinturas tornam visível o conceito de urihi, o “mundo-floresta-terra”, espaço onde humanos, espíritos e natureza coexistem em uma rede inseparável de relações.

Para Simon Watson, a exposição nasceu de uma investigação sobre linhagem e transmissão de conhecimento. O curador destaca que, apesar das diferenças geracionais, os três artistas compartilham uma preocupação comum: afirmar a continuidade de formas de existência e pensamento frequentemente ameaçadas pela exploração econômica e pela marginalização histórica.

Ao reunir essas vozes em um mesmo espaço, Riverlines apresenta ao público internacional uma Amazônia que não aparece apenas como cenário de disputas ambientais, mas como um centro ativo de produção artística e intelectual. A mostra, que fica em cartaz até 31 de julho, reafirma que essas obras não pertencem ao passado nem podem ser reduzidas a registros etnográficos. São criações contemporâneas, voltadas para o futuro, que transformam a arte em instrumento de memória, cuidado e resistência.

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