Redação Culturize-se
Ninguém tem o direito de decidir pelo outro como ele deve se parecer. A liberdade de mexer no próprio rosto e no próprio corpo, com ou sem cirurgia estética, é um princípio básico e não está em debate. A pergunta que fica é outra: quão livre é uma escolha feita num ambiente em que uma indústria inteira trabalha, 24 horas por dia, para convencer as pessoas de que há algo errado com a sua aparência?
Não se trata de condenar hábitos saudáveis ou o cuidado com o bem-estar físico e mental. O que está em jogo é a pressão incessante para que todos se encaixem num padrão visual.
A lógica é conhecida no mercado: mais do que vender um produto, é preciso criar uma necessidade, de preferência uma que nunca seja totalmente satisfeita. O envelhecimento é o exemplo perfeito. Rugas viram sinal de derrota, cabelos brancos viram motivo de constrangimento, e um processo natural passa a ser tratado como defeito a corrigir, com cremes, maquiagem, injeções e cirurgias. A leitura não é universal. Em algumas culturas do Oriente Médio, o cabelo grisalho é tradicionalmente associado a dignidade, sabedoria e respeito social.
Há ainda uma vantagem econômica evidente: o envelhecimento não para. Quem promete eliminá-lo atua sobre algo que não pode ser eliminado, e cada melhora temporária abre espaço para uma nova intervenção. O consumidor entra num ciclo potencialmente infinito de insatisfação e correção. A isso se soma a cobrança para permanecer “sexy” em qualquer idade, como se a atratividade sexual fosse a medida final do valor de uma pessoa.
A psicologia ajuda a entender o efeito. Seres humanos se avaliam, em parte, comparando-se aos outros. Quando as imagens ao redor são cada vez mais jovens, retocadas digitalmente ou modificadas por procedimentos, muda a noção do que é normal: um rosto comum passa a parecer imperfeito, e uma característica natural passa a exigir tratamento. A insegurança fabricada pode, no fim, ser vivida como gosto pessoal.
Isso não significa que quem recorre a procedimentos seja manipulado, superficial ou incapaz de decidir. Seria injusto e simplista, já que os motivos para querer mudar a aparência são muitos e legítimos. A questão está no contexto social e econômico em que a decisão é tomada. Oferecer a alguém a possibilidade de mudar é diferente de ensiná-lo, de forma sistemática, a não gostar do que vê no espelho: a primeira atitude amplia a liberdade, a segunda pode miná-la.
Talvez a maior conquista da indústria antienvelhecimento seja convencer as pessoas de que aparentar a própria idade exige pedido de desculpas. Envelhecer não é falha do corpo. É a prova de que a vida segue.
