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Quando o chocolate encontra o Levante: a deliciosa reinvenção da doçaria árabe

Redação Culturize-se

Poucas cozinhas preservam uma identidade doce tão marcante quanto a árabe. Basta pensar em um pedaço de baklava para que surjam imediatamente aromas de mel, pistache, nozes, água de rosas e flor de laranjeira. São sabores construídos ao longo de séculos, moldados por ingredientes abundantes no Oriente Médio e por uma tradição que entende a sobremesa não como excesso de açúcar, mas como equilíbrio entre perfume, textura e delicadeza.

Nesse universo, o chocolate é praticamente um estrangeiro.

O cacau jamais ocupou um papel relevante nas receitas clássicas da gastronomia árabe. Diferentemente da confeitaria europeia, que fez do chocolate um protagonista absoluto, a tradição levantina desenvolveu uma linguagem própria baseada em frutas secas, oleaginosas, especiarias e xaropes aromáticos. É justamente essa diferença que torna interessante observar o caminho percorrido pela culinária árabe no Brasil.

Ao longo das últimas décadas, especialmente em São Paulo, cidade que abriga uma das maiores comunidades árabes fora do Oriente Médio, o chocolate deixou de ser uma curiosidade para se transformar em um ingrediente incorporado naturalmente aos cardápios. O fenômeno não representa uma ruptura com a tradição, mas uma adaptação cultural típica das cozinhas que permanecem vivas.

Fotos: Divulgação

As esfihas doces ilustram esse processo de maneira exemplar.

Embora inexistentes na tradição sírio-libanesa, elas se consolidaram como uma criação genuinamente brasileira. O formato permanece fiel à massa leve e macia que caracteriza a esfiha, mas o recheio muda completamente de registro. Nutella, chocolates ao leite e meio amargo, Ovomaltine e outros ingredientes ligados ao imaginário afetivo brasileiro transformam um clássico salgado em sobremesa.

No tradicional Mussa Esfiha, fundado em 1951, essa convivência entre passado e presente acontece de forma particularmente interessante. O restaurante preserva receitas históricas ao mesmo tempo em que oferece versões como Chocolate Duo, Nutella e Ovomaltine, hoje entre as sobremesas mais procuradas da casa.

O mérito dessas releituras está justamente em não tentar transformar a culinária árabe em uma confeitaria europeia. O chocolate aparece como complemento, nunca como substituto da identidade gastronômica construída ao longo de gerações. A experiência continua sendo árabe em sua estrutura, em sua massa e em seu modo de servir; apenas conversa com um paladar contemporâneo que cresceu cercado pelo cacau.

Há quem veja esse tipo de adaptação como descaracterização. Trata-se de uma crítica compreensível, mas pouco convincente quando observamos a história da gastronomia. Toda cozinha relevante evoluiu por meio de encontros culturais. O tomate chegou tardiamente à Itália; a pimenta transformou diversas culinárias asiáticas apenas após as Grandes Navegações; o próprio chocolate percorreu um longo caminho das civilizações mesoamericanas até conquistar a Europa.

A culinária árabe no Brasil segue lógica semelhante. Ela preserva seus pilares, como hospitalidade, fartura, uso de especiarias e respeito aos ingredientes, enquanto incorpora elementos capazes de estabelecer uma ponte com novos consumidores.

Talvez seja justamente esse o maior acerto dessas esfihas de chocolate: elas não pretendem substituir o sabor complexo de uma baklava ou a elegância de um maamoul recheado com tâmaras. Funcionam como uma porta de entrada para um universo gastronômico muito mais amplo.

No fim, o chocolate não ocupa o centro da tradição árabe e nem precisa. Seu papel é outro: mostrar que uma cozinha confiante em sua identidade pode experimentar sem perder autenticidade. Quando a inovação nasce do respeito às raízes, ela deixa de ser modismo para se tornar parte da própria história da mesa.

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