Redação Culturize-se
A artista visual brasileira Pàulla Scàvazzini vive um momento decisivo em sua trajetória. Em 2026, ela apresenta duas novas exposições que consolidam uma pesquisa visual singular: a participação no duo show “Between Utopias and Abyss”, com curadoria de Maryana Kaliner, na Kaliner Gallery, em Nova York, e a individual “Língua de Fogo”, com curadoria de Shannon Botelho, no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro. As mostras, embora distintas em contexto e escala, compartilham eixos centrais de uma investigação que desloca a pintura do plano bidimensional para experiências imersivas, em que a tinta avança sobre paredes e pisos, transformando o espaço arquitetônico em campo de ação corporal.
Scàvazzini desenvolve uma prática que tensiona os limites entre arquitetura, corpo e pintura. Suas obras, marcadas por forte gestualidade e por estudo aprofundado da cor, da luz e da composição, partem do imaginário botânico tropical para construir atmosferas que oscilam entre paisagem e ruína. A artista articula colapso ambiental e social à ideia de reinvenção, propondo que a percepção corporal do espectador seja modificada por uma experiência sensorial e afetiva. A dimensão poética se estende aos títulos — “vento desértico”, “fogueira de sal”, “precipício, suspiro”, “tudo o que brilha ao norte e derrete em festa ao sul” —, micro poesias sinestésicas que convocam cheiro, temperatura e memória antes mesmo do encontro do olhar com a imagem.
“Essas duas exposições partem do imaginário botânico tropical, em que paisagens se desfazem em manchas e campos de cor”, explica a artista. “Essa dissolução da imagem é também uma recusa em oferecer a paisagem de um mundo em colapso como consolo, como se a arte pudesse restituir ruínas. O que me interessa é uma pintura que permaneça nessa tensão, e que, por isso mesmo, precisa sair da tela para encontrar o corpo.”
Nova York: pintura expandida e diálogo com a cidade
A mostra nova-iorquina, inaugurada nesta semana, reúne Scàvazzini e a artista norte-americana Austin Fields em uma exposição que se organiza como “uma grande e visceral pintura expandida”. Com 20 trabalhos desenvolvidos durante residência na Residency Unlimited, uma das mais relevantes instituições artísticas dos Estados Unidos, a artista ocupa paredes, piso e telas em diferentes escalas, estabelecendo relação direta com o espectador, a rua e a cidade.

Sob curadoria de Maryana Kaliner, as obras refletem sobre “utopias” no plural — estados em permanente transformação, tensionados entre promessa e colapso. Nesse contexto, o gesto manual e o fazer surgem como formas de resistência, especialmente na produção de mulheres artistas que operam a partir da matéria e do corpo. “Vou experimentar ao máximo minha pesquisa de escala, estirando a pintura do menor formato às grandes dimensões, pintando uma galeria inteira, aberta ao público, algo que quase nunca encontro e muito menos em uma galeria em Nova York com grande fachada envidraçada voltada para a cidade”, antecipa Scàvazzini.
Na exposição, suas pinturas dialogam com as esculturas em vidro de Austin Fields: as telas operam como paisagens em expansão, enquanto as esculturas aparecem como fragmentos encapsulados e condensados em forma tridimensional. O conjunto funciona como organismo único, em que cada obra atua como fragmento de composição maior.
“Entendo o ato de pintar como uma prática do corpo inteiro; quase uma psicografia pictórica”, define a artista. “Não é a mão que decide a imagem, mas o corpo que a conduz enquanto a mente se retira. Cada pincelada registra um tempo de execução que é físico antes de ser intelectual. É catártico.”
Paisagens apocalípticas
Já no Rio de Janeiro, com abertura em 27 de maio, “Língua de Fogo” se configura como desdobramento da mostra nova-iorquina, agora orientada pelos limites mais rígidos e pela espacialidade ampliada de um contexto institucional. Com quinze trabalhos, a maior parte inédita, Scàvazzini aprofunda a pesquisa sobre o gesto, a transformação da percepção do olhar e do estar do espectador, revisitando o estudo da cor e das paisagens apocalípticas contemporâneas.
Nascida em São José dos Campos (SP) e radicada em São Paulo, a artista constrói trajetória independente, sustentando produção a partir do próprio trabalho e da circulação de obras. Com passagens por residências em Lisboa, Paris e Nova York, e peças em coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior, ela consolida pesquisa que articula pintura, espaço e experiência sensorial. Ao ocupar Nova York e Rio de Janeiro simultaneamente, Scàvazzini amplia o alcance de sua prática e afirma a pintura como linguagem viva, capaz de reorganizar o espaço, tensionar o olhar e propor novas formas de imaginar e habitar o mundo.