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Euphoria” retorna como vestígio de uma geração em transformação

Redação Culturize-se

A terceira temporada de “Euphoria” chega carregada não apenas de expectativa, mas do peso do tempo — um intervalo tão prolongado que a série já não simplesmente continua; ela retorna a um cenário cultural que já assimilou, reformulou e, em muitos aspectos, superou as condições que antes a tornavam imediata. O que, em 2019, era uma síntese volátil de excesso estético e reconhecimento geracional reaparece agora como algo mais estranho: uma obra assombrada tanto pelo amadurecimento de seu público quanto por suas próprias ambições narrativas.

Revisitar “Euphoria” hoje é confrontar uma espécie de dupla exposição. De um lado, a série insiste em seu projeto original — mapear o território psíquico da adolescência por meio de uma gramática exacerbada de luz, som e afeto. De outro, tornou-se inseparável das biografias de quem a assiste. A distância entre as temporadas permitiu que a vida interviesse. A imobilidade suburbana que antes moldava sua recepção — esses mundos contidos de festas, rumores e identidades frágeis — deu lugar, para muitos, a geografias mais amplas e identidades mais difusas. Nesse sentido, a série já não apenas retrata a juventude; ela indexa uma versão passada dela.

Essa tensão se inscreve formalmente na estrutura da terceira temporada. O salto temporal de cinco anos é menos um recurso narrativo do que uma admissão: os personagens, assim como o público, não podem permanecer indefinidamente suspensos na adolescência. No entanto, em vez de resolver essa dissonância, a série a intensifica. A trajetória de Rue — agora envolvida em circuitos transnacionais do tráfico, estilizados por meio de referências de gênero — prolonga a fascinação da série pelo extremo, mas à custa da coerência. A estetização do trauma, antes mediada pela subjetividade adolescente, opera agora em uma escala inflada e curiosamente distanciada. A questão deixa de ser a verossimilhança e passa a ser a própria relevância da crença.

Foto: Divulgação

O que emerge é uma série cada vez mais preocupada com seus próprios mecanismos de representação. O equilíbrio inicial entre o plausível e o hiper-real — aquelas histórias que soavam como boatos sussurrados — cede lugar a uma lógica interna que privilegia a escalada contínua. O mundo de “Euphoria” já não tangencia o real; ele se fecha sobre si mesmo, regido por uma dinâmica em que o sofrimento não é apenas tema, mas estrutura, reiterado até se tornar abstrato.

Ainda assim, reduzir isso a mero excesso seria ignorar a fidelidade peculiar da série à arquitetura emocional da juventude. Há uma aleatoriedade em sua narrativa — personagens que entram e saem, tramas que começam sem necessariamente se resolver — que espelha a incoerência da experiência vivida. Amizades se dissolvem, identidades se deslocam, desejos se transformam sem explicação. Se antes essa instabilidade era traduzida como linguagem compartilhada, agora aparece como fragmentação. O efeito deixa de ser reconhecimento coletivo e passa a ser estranhamento.

Essa inflexão se torna ainda mais evidente na abordagem da sexualidade e do poder. O que antes parecia uma exploração inicial de identidades emergentes agora assume a forma de um circuito repetitivo, que oscila entre performance, exploração e vigilância. A representação do trabalho sexual, em particular, alterna entre fascínio e repulsa, sem resolver suas próprias contradições. O olhar da câmera — há muito questionado — torna-se cada vez mais difícil de dissociar das estruturas que pretende examinar.

Ao mesmo tempo, as atuações funcionam como âncoras de continuidade. Zendaya, como Rue, permanece um centro gravitacional, cuja interioridade contrabalança o espetáculo ao redor. Há momentos — breves, mas precisos — em que a série recupera sua capacidade de intimidade, quando o ruído cede e algo próximo ao reconhecimento reaparece. Esses instantes sugerem uma outra versão possível de “Euphoria”, menos interessada na escalada e mais atenta às nuances que antes a definiam.

Essa dinâmica dificulta qualquer avaliação direta da terceira temporada. Sua aparente desarticulação — a perda de impulso narrativo, a inconsistência dos personagens — pode refletir menos uma falha do que sua nova posição cultural. “Euphoria” tornou-se grande demais, consciente demais de si, excessivamente atravessada por sua própria mitologia. As vidas públicas do elenco, os atrasos na produção e o ruído crítico passam a integrar o próprio texto.

O que resta é uma série em suspensão: entre adolescência e maturidade, entre intimidade e espetáculo, entre crítica e cumplicidade. Sua aproximação com a ideia de recuperação — a entrega a uma força maior — sugere um desejo de resolução. No entanto, a narrativa resiste ao fechamento, orbitando as mesmas questões, agora atravessadas pelo tempo.

Nesse sentido, “Euphoria” persiste não como um retrato definitivo de uma geração, mas como um documento em transformação de suas contradições. Ela captura a simultaneidade de desespero e desejo, a oscilação entre autodestruição e reinvenção, a busca por sentido em condições que a frustram. Se a terceira temporada parece deslocada, é porque reflete um deslocamento mais amplo — aquele em que as certezas da juventude se dissolvem, deixando um terreno mais ambíguo.

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