Por Reinaldo Glioche
Poucas bandas carregam um peso histórico tão grande quanto os Rolling Stones. Após mais de seis décadas de carreira, seria compreensível que Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood optassem por gravar discos voltados exclusivamente para a nostalgia, repetindo fórmulas consagradas enquanto administram um legado praticamente intocável. “Foreign Tongues”, entretanto, segue justamente pelo caminho oposto. O 25º álbum de estúdio do grupo demonstra que a maior virtude dos Stones nunca foi apenas sobreviver ao tempo, mas continuar dialogando com ele.
Desde os anos 1960, os Rolling Stones construíram uma trajetória marcada pela capacidade de absorver novas influências sem perder sua personalidade. Blues, country, reggae, disco, punk, new wave e até elementos eletrônicos passaram por sua discografia, sempre filtrados pelo estilo inconfundível da banda. Essa inquietação artística continua sendo um dos motores de “Foreign Tongues”, que reafirma uma característica frequentemente esquecida: os Stones nunca foram uma banda presa ao passado.
A parceria com o produtor Andrew Watt, iniciada em “Hackney Diamonds” (2023), mostra-se ainda mais madura neste novo trabalho. Watt compreende profundamente a linguagem clássica dos Rolling Stones, mas também domina a estrutura da produção pop contemporânea. O resultado é um disco que soa moderno sem abrir mão das imperfeições e da espontaneidade que sempre fizeram parte do DNA do grupo.
Se em alguns momentos percebe-se uma arquitetura musical mais calculada, a essência permanece intacta. O blues vigoroso de “Rough And Twisted Road”, o balanço irresistível de “In The Stars” e a energia quase punk de “Mr Charm” evidenciam que os Stones continuam encontrando novas maneiras de explorar territórios familiares. Mais do que repetir antigas fórmulas, eles as reorganizam com inteligência.

Outro mérito de “Foreign Tongues” está na disposição de refletir sobre o mundo contemporâneo. Ao longo do álbum, Jagger abandona a posição confortável de uma lenda do rock para comentar temas atuais, ironizando figuras do poder econômico, criticando o cenário político norte-americano e observando uma sociedade cada vez mais dividida. É significativo que uma banda frequentemente associada apenas ao hedonismo ainda encontre espaço para exercer olhar crítico sem soar panfletária.
Essa consciência aparece de maneira particularmente interessante em “Ringing Hollow”, uma das composições mais inspiradas do disco. Embalada por uma atmosfera country que remete ao início da década de 1970, a faixa funciona como uma despedida melancólica de uma América que durante décadas serviu de inspiração musical para os Stones. Não há ressentimento gratuito, mas uma constatação amarga de que o país atravessa profundas transformações sociais e políticas.
Também chama atenção a vitalidade vocal de Mick Jagger. Aos mais de oitenta anos, sua interpretação continua surpreendentemente expressiva. Naturalmente, o timbre amadureceu, mas permanece cheio de personalidade, alternando ironia, sensualidade e urgência emocional com uma desenvoltura que muitos cantores décadas mais jovens dificilmente alcançam.
Keith Richards, por sua vez, segue desempenhando seu papel habitual de contraponto emocional da banda. Sua participação em “Some Of Us” acrescenta humanidade ao álbum, revelando um artista consciente da passagem do tempo, mas distante de qualquer sentimento de resignação. Há melancolia, mas também serenidade.

Musicalmente, “Foreign Tongues” talvez não apresente um clássico instantâneo do porte de “Gimme Shelter”, “Jumpin’ Jack Flash” ou “Start Me Up”. Essa ausência, porém, está longe de comprometer o conjunto. O álbum funciona justamente pela consistência de seu repertório, que mantém elevado nível de inspiração do início ao fim.
Mesmo as participações especiais são utilizadas com equilíbrio. Nomes como Paul McCartney, Bruno Mars, Robert Smith e Benmont Tench aparecem como colaboradores discretos, sem jamais desviar o foco da verdadeira estrela: a química construída entre Jagger, Richards e Wood ao longo de décadas.
A capa do álbum sintetiza perfeitamente esse espírito. Em vez de esconder a idade de seus integrantes, ela a transforma em motivo de provocação. As rugas, frequentemente usadas como argumento para desqualificar a permanência dos Stones, convertem-se em símbolo de resistência. Em um mercado musical que valoriza incessantemente a novidade, talvez o gesto mais radical seja justamente continuar existindo.
Mais importante ainda, “Foreign Tongues” evita a armadilha que acomete tantos artistas veteranos: transformar cada novo lançamento em mera celebração do próprio passado. Os Rolling Stones continuam olhando para frente. Se revisitam referências de diferentes momentos da carreira, fazem isso para produzir algo novo, e não simplesmente para despertar nostalgia.
Talvez esse seja o verdadeiro segredo da longevidade da banda. Mick Jagger sempre demonstrou pouco interesse em romantizar seu catálogo antigo, preferindo concentrar energia no próximo projeto. Essa postura, que pode parecer até impiedosa com sua própria história, explica por que os Rolling Stones permanecem relevantes enquanto tantos contemporâneos se tornaram apenas atrações de museu.
“Foreign Tongues” dificilmente será lembrado como o maior álbum da carreira da banda. Também não precisa ser. Seu verdadeiro triunfo está em provar que criatividade, curiosidade e ambição artística ainda movem músicos que já conquistaram tudo o que era possível conquistar. Poucos artistas conseguem envelhecer sem perder a capacidade de surpreender. Os Rolling Stones continuam entre essas raríssimas exceções.