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Emmy ratifica Apple como grande ameaça ao domínio criativo da HBO

Redação Culturize-se

As indicações para a 78ª edição do Emmy Awards, principal premiação da televisão norte-americana, chegaram sem grandes reviravoltas, mas deixaram alguns recados claros sobre o momento da indústria. O principal deles é que a HBO Max segue ocupando a posição de principal referência em televisão de prestígio, enquanto o Apple TV consolidou definitivamente sua ascensão entre os grandes estúdios do streaming. Ao mesmo tempo, a lista revelou que, apesar da explosão na quantidade de séries produzidas nos últimos anos, a Academia de Televisão continua concentrando sua atenção em um grupo relativamente pequeno de produções.

A liderança geral ficou com a HBO Max, que somou 122 indicações, seguida pela Netflix, com 111. A grande vencedora moral, entretanto, talvez seja a Apple, que alcançou um recorde histórico de 87 indicações e demonstrou uma profundidade de catálogo que poucos imaginavam há apenas alguns anos, quando sua identidade estava praticamente restrita a sucessos como “Ted Lasso” e “Severance”. Hoje, a plataforma disputa espaço em praticamente todas as principais categorias da premiação. Emplacou três produções entre os melhores dramas do ano e outras três entre as melhores comédias. Ninguém mais fez isso.

Entre as produções, nenhuma teve desempenho superior ao drama médico “The Pitt”. Em sua segunda temporada, a série recebeu 25 indicações, tornando-se o programa mais lembrado do ano. O resultado confirma não apenas a força da produção como também o entusiasmo da Academia por seu elenco. Das 25 indicações, 13 vieram nas categorias de atuação, número que quase iguala o recorde estabelecido por “Succession” em 2022.

No campo da comédia, “Hacks” voltou a fazer história. A quinta e última temporada da série recebeu 24 indicações, estabelecendo um novo recorde para uma comédia em uma única edição do Emmy. O feito supera as marcas recentes de “The Bear” e “The Studio” e reforça uma tendência observada nos últimos anos: a Academia continua privilegiando comédias autorais, de forte identidade criativa, em detrimento de produções mais tradicionais.

O desempenho das duas séries também evidencia outro fenômeno recorrente da premiação: a enorme influência do núcleo de atores da Academia. Diversos analistas observaram que boa parte das indicações recebidas por “The Pitt” e “Hacks” veio justamente das categorias de interpretação, sugerindo que os cerca de 27 mil votantes acabam concentrando sua atenção em poucas produções ao longo do período de avaliação.

Essa percepção ajuda a explicar por que algumas séries conseguem transformar popularidade entre os votantes em uma avalanche de indicações, enquanto outras praticamente desaparecem da disputa. Para muitos especialistas, a Academia parece assistir intensamente a apenas um número reduzido de programas durante a temporada de votação, criando um efeito de concentração que beneficia produções já muito comentadas.

Nesse cenário, o Apple TV foi uma dos grandes beneficiados. Além das 18 indicações de “Pluribus”, a plataforma emplacou diversas produções entre as principais categorias. “Slow Horses” manteve sua força, “Shrinking” alcançou seu melhor desempenho até hoje e estreantes como “Widow’s Bay” e “Margo’s Got Money Troubles” demonstraram que a empresa conseguiu ampliar significativamente sua capacidade de lançar sucessos simultaneamente.

Talvez o caso mais curioso da lista seja “Your Friends & Neighbors”. O drama estrelado por Jon Hamm conquistou apenas uma única indicação — justamente para Melhor Série Dramática. Não recebeu reconhecimento para atores, direção, roteiro ou categorias técnicas. Trata-se de uma situação raríssima na história recente do Emmy: uma produção considerada uma das oito melhores séries dramáticas do ano sem qualquer indicação individual que sustentasse essa escolha.

Se alguns comemoraram, outros receberam amargor. O caso mais simbólico foi “Stranger Things”. Pela primeira vez desde sua estreia, a produção da Netflix ficou fora da categoria principal de Melhor Série Dramática justamente em sua temporada final. Embora tenha aparecido em categorias técnicas, a ausência representa um encerramento discreto para uma das franquias mais importantes da história do streaming.

Outro sinal de mudança veio com “The Bear”. Depois de dominar as últimas edições da premiação, a série viu seu prestígio diminuir consideravelmente. Fora Ayo Edebiri, indicada como atriz principal de comédia, praticamente todo o elenco ficou ausente das categorias de atuação. Jeremy Allen White, Ebon Moss-Bachrach e Jon Bernthal ficaram de fora, indicando que o entusiasmo da Academia pela produção pode estar chegando ao fim após anos de protagonismo.

A situação também foi desfavorável para o universo de séries criado por Taylor Sheridan. Apesar da enorme popularidade de títulos como “Landman” e “The Madison”, as produções praticamente passaram em branco nas principais categorias, reforçando uma tendência já observada em anos anteriores: sucesso de audiência nem sempre se traduz em reconhecimento da Academia.

Indicados da Netflix ao prêmio | Foto: Reprodução/Internet

Enquanto isso, veteranos continuam exercendo enorme influência entre os votantes. Jean Smart pode igualar o recorde histórico de oito vitórias em categorias de atuação caso conquiste mais um Emmy por “Hacks”. Martin Short voltou a ser indicado por “Only Murders in the Building”, Jason Bateman acumulou quatro indicações em diferentes funções e nomes como Steve Carell, Jamie Lee Curtis, Billy Crudup, Zendaya e Colman Domingo mantiveram presença constante entre os indicados.

A fotografia desenhada pelas indicações do Emmy 2026 revela uma televisão paradoxal. Nunca houve tantas séries disponíveis ou tantos investimentos em produção original, mas a disputa pelos principais prêmios parece cada vez mais concentrada em um número reduzido de títulos capazes de mobilizar a atenção dos votantes. Nesse ambiente, HBO Max reafirma seu domínio, a Apple consolida seu crescimento como potência criativa e a Netflix, embora ainda muito forte em números absolutos, começa a enfrentar uma concorrência mais equilibrada na corrida pelos principais troféus. As indicações mostram que o Emmy continua premiando excelência, mas também evidenciam como visibilidade, força de campanha e capacidade de permanecer no centro da conversa se tornaram fatores quase tão importantes quanto a qualidade das próprias séries.

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