Reinaldo Glioche
Aos 70 anos e enfrentando o Parkinson diagnosticado em 2022, Lars von Trier segue trabalhando no que pode ser o encerramento de sua carreira: “After”, 15º longa-metragem do dinamarquês. Segundo Peter Aalbæk Jensen, produtor e amigo de longa data do diretor, o roteiro do filme deve ficar pronto ainda em agosto — as filmagens, porém, ainda nem começaram, contrariando informações anteriores que sugeriam uma possível estreia em festival já neste ano.
O projeto recebeu 1,3 milhão de coroas dinamarquesas do Instituto de Cinema da Dinamarca, um valor considerado incomum para os padrões do fundo. Segundo Jensen, “After” discute a vida após a morte e se apoia fortemente nas reflexões pessoais de Von Trier sobre mortalidade e transitoriedade — temas que ganham peso redobrado diante do quadro de saúde do próprio diretor, que hoje vive parte do tempo em uma casa de repouso, intercalando estadias com sua residência particular, conforme suas condições físicas.
De acordo com o produtor, a doença não deve impedir Von Trier de dirigir o filme: fisicamente limitado, mas mentalmente íntegro, o cineasta sempre concebeu “After” de forma a se adaptar ao seu estado físico — transformando, mais uma vez, uma limitação pessoal em material criativo, como fez ao longo de toda a carreira.
Poucos discutem a influência de Von Trier sobre o cinema contemporâneo. Fundador do movimento Dogma 95 ao lado de Thomas Vinterberg e cofundador da produtora Zentropa Films — responsável por mais de 350 milhões de ingressos vendidos e oito indicações ao Oscar —, o diretor construiu uma obra marcada por experimentações formais e temas incômodos, de “Ondas do Destino” e “Dançando no Escuro” a “Melancolia” e “Dogville”.

Seu último trabalho como diretor de um longa foi “A Casa que Jack Construiu” (2018), comédia sombria de quase três horas sobre um serial killer vivido por Matt Dillon — provocador, perturbador e irônico, reunindo tudo o que definiu sua carreira. Em 2022, ele retornou brevemente às telas ao dirigir a terceira temporada de “O Reino”, série hospitalar de terror que ele criou nos anos 1990. Foi por volta dessa época que o diagnóstico de Parkinson veio a público, marcando o início de um hiato que dura até hoje.
Com um histórico de polêmicas — de declarações controversas sobre a guerra na Ucrânia ao banimento de Cannes em 2011, após comentários sobre Hitler — Von Trier segue sendo uma das figuras mais divisivas e influentes do cinema europeu. Se “After” for de fato seu último filme, promete ser, como toda sua obra, tudo menos discreto.