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O retorno do Cine Copan e a inversão de um ciclo urbano-cultural

Redação Culturize-se

Nas últimas décadas, os centros urbanos brasileiros testemunharam uma transformação simbólica e silenciosa: os antigos cinemas de rua foram fechando suas portas, cedendo lugar a igrejas evangélicas que, em muitos casos, se instalaram exatamente onde antes se projetavam histórias na tela grande. Foi um movimento impulsionado por fatores econômicos, mudanças nos hábitos de consumo cultural e pelo crescimento explosivo das igrejas neopentecostais. Agora, esse ciclo parece se inverter de maneira emblemática: o antigo templo da Igreja Renascer em Cristo, instalado no térreo do Edifício Copan, em São Paulo, dará lugar, novamente, a um cinema.

Trata-se do renascimento do Cine Copan, inaugurado em 1970 no coração de um dos edifícios mais icônicos do país, projetado por Oscar Niemeyer com colaboração de Carlos Lemos. A sala, com seus mais de 1.100 lugares e poltronas vermelhas de veludo, foi concebida como parte integrante do projeto arquitetônico do Copan, que visava criar uma experiência urbana completa e multifuncional. Entretanto, como tantos outros cinemas de rua da capital paulista, fechou em 1986, vítima da decadência desses espaços diante da ascensão dos shoppings e da fragmentação do consumo audiovisual.

Na década de 1990, o espaço foi comprado pela Fundação Renascer em Cristo e transformado em igreja. A ocupação religiosa se manteve até 2008, quando o local foi interditado pela Prefeitura e a fundação dissolvida em meio a acusações de má gestão de verbas públicas. Desde então, o espaço permaneceu ocioso, mas agora volta a protagonizar o debate sobre a ocupação simbólica e cultural do centro de São Paulo.

Foto: Estadão Conteúdo

O síndico do prédio, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, disse ao G1 que o projeto de reabertura do cinema está em fase de negociação, correndo sob segredo de Justiça, mas com perspectivas reais de se tornar uma sala multiuso voltada a atividades culturais. A reinauguração está prevista para ocorrer em cerca de dois anos, e promete trazer inovação, ainda que alguns dos elementos originais do cinema tenham sido descaracterizados pela ocupação religiosa.

A simbologia desse retorno não pode ser ignorada. O que está em jogo não é apenas a reabertura de uma sala de cinema, mas a retomada – ainda que pontual – de um espaço público voltado à fruição coletiva da cultura em um edifício que, por sua densidade populacional e diversidade comercial, permanece um microcosmo urbano pulsante. A ideia de um cinema no Copan está enraizada no próprio DNA do projeto arquitetônico original, que previa não apenas uma sala, mas uma articulação vertical entre o foyer e o térreo, nunca completamente executada.

O caso do Cine Copan também expõe a complexa relação entre patrimônio, memória e usos urbanos. Ao longo das últimas décadas, o edifício sofreu alterações, infiltrações, queda de pastilhas e descaracterizações internas. Ainda assim, resistiu como símbolo de uma São Paulo modernista, utópica, muitas vezes contraditória. A volta do cinema – mesmo que com nova linguagem e propósito – dialoga com esse passado e reabre possibilidades de reinvenção.

Se por um lado há nostalgia envolvida, por outro há também desafios concretos: manter um cinema de rua funcionando hoje, em um mercado audiovisual dominado por streamings e redes multiplex, exige mais do que boa vontade. Exige programação inventiva, gestão eficiente e articulação com redes culturais locais. Um cinema multiuso pode abrigar debates, performances, mostras temáticas e funcionar como polo de encontro num centro que busca ser reabitado em outras chaves.

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