Por Reinaldo Glioche
“O chargista não tem o direito de crítica, tem o dever de crítica.” É com essa convicção que Cláudio de Oliveira define o seu trabalho como cartunista político e celebra seus 50 anos de trajetória, desenhando a política brasileira, sendo 33 deles no Grupo Folha, desde 1993, começando nos cadernos regionais da Folha de São Paulo, e depois Folha da Tarde, Agora SP e Folha de São Paulo, incluindo, desde 2022, seu blog de humor, Cláudio Hebdô, na versão on-line da Folha.
A trajetória de Cláudio de Oliveira é um testemunho da presença do cartum político no Brasil e conta com a influência de Henfil, Henrique de Souza Filho, um dos maiores artistas do humor gráfico nacional, dos anos 1960 a 1980, criador dos Fradinhos, do Zeferino e da Graúna, entre outros.

Cláudio começou a publicar diariamente aos 13 anos, de maneira autodidata, em junho de 1976, no jornal Tribuna do Norte, em Natal (RN). De lá para cá, são cerca de 14 mil charges, das quais uma parte está reunida em 36 livros, sendo 31 em formato e-book.
Para celebrar esse marco de 50 anos, ele anuncia três e-books comemorativos: “Fogo Amigo 1”, já disponível, e “Fogo Amigo 2”, ambos sobre a política econômica do governo. Além disso, está em andamento o e-book “Amigo do Fogo”, com charges sobre o relacionamento de Lula com os partidos e o Congresso.
Meio século de traço afiado dá a qualquer um o direito de fazer as pazes com a própria obra. Cláudio de Oliveira prefere o caminho oposto: revisita seus próprios erros de leitura com o mesmo rigor que aplica aos poderosos. Perguntado sobre os momentos-chave da carreira, do que se orgulha e do que se arrepende, ele não hesita em admitir tropeços. Seu trabalho nasceu colado à redemocratização — campanha da anistia, diretas já, constituinte —, e essa origem marcou sua formação, inclusive na decisão, uma década depois de estrear, de estudar artes gráficas na então Tchecoslováquia, aprendendo tcheco para tanto. Mas o retrovisor também mostra falhas: tratou o governo Itamar Franco “de forma folclórica”, como boa parte da imprensa da época, e hoje não repetiria algumas críticas que fez a Fernando Henrique Cardoso. A confissão soa quase deslocada num país acostumado a comentaristas que nunca erram. “O cartunista tem o dever de crítica, mas tem que ter humildade para ser crítico consigo mesmo também”, resume.
Essa humildade autocrítica convive com uma recusa deliberada ao tribalismo. Como não virar refém da polarização sendo, por ofício, um profissional da crítica? Cláudio responde recusando o papel de torcedor: evita pautar-se pela agenda do governo ou pela pauta da oposição, e diz perseguir o que julga relevante para o interesse público. A prova, para ele, está nos e-books que reúnem 32 volumes de charges desde 1977 — e no fato de colecionar críticas iradas tanto de um polo quanto do outro. Ser xingado pelos dois lados não é fracasso: é indício de independência.
Se há um alvo fixo nessa trajetória, é o Poder. Ao ser questionado sobre quais figuras da fauna política brasileira são mais “aderentes” à charge, Cláudio recupera a lição que herdou de Henfil, que viveu em Natal entre 1976 e 1978 e o orientou pessoalmente: o alvo do cartunista é sempre quem governa, porque é quem detém os instrumentos para melhorar, ou piorar, a vida do cidadão. Não importa o nome na Presidência. Herdeiro também do espírito anarquista de “O Pasquim” — cujo lema evocava o náufrago espanhol que perguntava se havia governo na ilha só para se declarar contra —, ele distingue humor de piada: “na charge, humor não é mera piada, é, sobretudo, crítica. E criticismo não é a crítica pela crítica subjetiva, mas fundamentada em valores democráticos, republicanos (de governar servindo ao interesse público), humanistas e de justiça social, que para mim são compromissos éticos profissionais”.

E é justamente aí que mora a provocação mais direta da conversa: o e-book “Amigo no Fogo” e a longa presença de Lula na cena política brasileira, quase coincidente com a própria carreira do chargista. Cláudio advoga que a responsabilidade pela condução do país cabe aos líderes, e Lula e seu partido comandam o Brasil, com intervalos, desde 2002 — logo, respondem pelas charges que recebem. O mensalão, lembra ele, não foi só corrupção no uso do dinheiro público, mas um golpe na legitimidade dos partidos e do Congresso, pilares da democracia representativa — e por isso alvo severo do traço. Depois de décadas desenhando inflação, planos econômicos fracassados (Cruzado) e um Real que funcionou parcialmente, ele lança “Fogo Amigo 1” e “Fogo Amigo 2” mirando a persistência de velhos problemas no terceiro mandato lulista: juros altos, déficit público, inflação. Já “Amigo no Fogo” escancara algo mais amplo: a dificuldade de pensar em termos de país, presente em “todos os endereços da Praça dos Três Poderes”, relegando parte da população ao segundo plano.
No papo com Culturize-se, ele se permite divagar. “É necessário e urgente um amplo projeto que una e mobilize o país e vá além do imediatismo do interesse eleitoral e partidário”. Cláudio, porém, não perde sua bússola de vista; já que é ela “que me faz navegar em meio às mudanças e intempéries nas últimas décadas”.
O jornalismo mudou desde 1976. Tecnologia transformou rotinas, mas ele insiste que princípios básicos permanecem, e exigem hoje ainda mais rigor na análise dos fatos. Nesse cenário, a charge segue relevante justamente por oferecer, pela via do humor e da arte, uma leitura crítica que ajuda o leitor a formar opinião própria — tarefa e pretensão grandes, ele reconhece, num terreno tão complexo quanto a política. Não é acidente histórico: caricatura política e imprensa moderna nasceram juntas na Europa, a partir do fim do século 18.
Cláudio observa a crescente intolerância à sátira como sintoma de uma tradição democrática rasa. Ele evoca Angelo Agostini e sua “Revista Ilustrada” no século 19, perseguido apesar da relativa liberdade da época; Aparício Torelli, o Barão de Itararé, tantas vezes espancado na República Velha que pendurou na porta da redação o aviso “policiais, entrem sem bater”, e depois preso no Estado Novo; e toda a redação do “Pasquim” passando o Natal de 1970 na cadeia. O massacre do “Charlie Hebdo”, em 2015, mesmo em contexto distinto, entra como retrato contemporâneo do fanatismo. O diagnóstico é duro: “o adversário político deixou de ser interlocutor legítimo para virar inimigo a eliminar”, à direita e à esquerda. Cláudio sustenta que “a intolerância e perseguições, sobretudo em relação a chargistas, cartunistas e humoristas críticos, demonstram a força e a influência da linguagem do humor, e como ela rompe com a indiferença”.




Reunir 14 mil charges em três novos e-books não foi mero arquivamento. Ao explicar o processo de seleção, Cláudio descreve uma escolha deliberadamente livre da cronologia diária: buscou os desenhos mais expressivos dos fatos mais significativos do atual mandato, agregando notas explicativas que sustentam análises e críticas. O resultado, segundo ele, deixou de ser compilação para virar narrativa — uma visão orgânica de um período, na qual cada charge ganha, na “reciclagem” editorial, uma durabilidade que o jornal do dia seguinte não permite.
Cinquenta anos depois de estrear autodidata num jornal de Natal, Cláudio de Oliveira segue fiel ao mandamento que herdou: criticar não é opção, é dever.