Redação Culturize-se
O documentarista vencedor do Oscar Alex Gibney apresentou, nesta semana, no Festival de Veneza, “Musk”, um retrato de quase quatro horas sobre a trajetória do homem mais rico do mundo. O filme, que chega aos cinemas dos EUA em 16 de outubro, percorre a vida de Elon Musk desde a infância na África do Sul até sua atual influência sobre política, tecnologia e cultura, e já provoca reação do próprio bilionário, que ameaça processar o diretor por difamação.
Gibney, conhecido por documentários sobre escândalos corporativos como o caso Enron e a farsa da startup de exames de sangue de Elizabeth Holmes, começou a desenvolver o projeto em 2023 com a intenção de fazer um filme mais enxuto. O escopo mudou quando Musk se aproximou da campanha de Donald Trump em 2024 e assumiu à frente do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), unidade responsável por cortes na máquina pública americana. Diante do novo capítulo, o diretor optou por um projeto mais amplo, capaz de mostrar como as diferentes frentes de atuação de Musk se conectam.
Sem a participação do próprio Musk, que recusou o convite para ser entrevistado, Gibney recorreu a arquivos e a uma extensa lista de fontes próximas ao bilionário ao longo de décadas. Entre os entrevistados estão o pai de Musk, Errol, que discorre sobre o filho ter sido vítima de bullying na juventude; a primeira esposa, Justine Musk, que relembra momentos dolorosos da vida em comum, incluindo a morte de um dos filhos do casal; e Martin Eberhard, cofundador da Tesla, cuja relação com Musk terminou em disputa judicial sobre o título de fundador da empresa. Também aparece Ashley St Clair, ex-namorada de Musk e antiga influenciadora conservadora ligada ao movimento Maga, que hoje descreve publicamente o bilionário de forma bastante crítica.

Para tentar reconstituir a perspectiva do próprio Musk diante de sua recusa em participar, Gibney criou um avatar fotorrealista gerado por inteligência artificial, que reproduz falas que o bilionário já fez publicamente em podcasts e discursos. A escolha, definida pelo diretor como “intencionalmente irônica”, divide opiniões: para alguns críticos, o recurso é visualmente perturbador e acaba destoando do tom mais sério do restante da obra. O documentário também inclui trechos em estilo de videogame em primeira pessoa — como uma cena em que um Musk animado aparece armado com uma motosserra “cortando” agências federais, numa referência direta à atuação do Doge — e um momento em que o próprio Gibney testa a ferramenta de inteligência artificial Grok, desenvolvida por Musk, perguntando se robôs poderão “salvar” a humanidade.
Apesar desses recursos experimentais, os trechos mais contundentes do filme, segundo relatos de quem já assistiu à obra, são aqueles em que Gibney confronta diretamente as declarações públicas de Musk com registros documentais. Um dos exemplos mais citados envolve uma cena de depoimento judicial na qual um engenheiro da Tesla revela que um vídeo promocional, usado para demonstrar a tecnologia de direção autônoma da montadora, havia sido encenado — o carro, na realidade, colidira contra uma cerca durante as gravações. O documentário também menciona que, segundo um banco de dados público que reúne relatórios da agência reguladora de trânsito americana (NHTSA), registros judiciais e reportagens, 65 mortes já foram associadas a acidentes em que o software de direção autônoma da Tesla teria sido um fator determinante. A empresa afirma que suas tecnologias de piloto automático e direção totalmente autônoma são projetadas para uso com um motorista atento, com as mãos ao volante e pronto para assumir o controle a qualquer momento.
O filme também resgata a trajetória empresarial de Musk desde o fim dos anos 1990, quando criou um site de listagem de empresas semelhante às páginas amarelas, passando por sua entrada na PayPal — fundada por Peter Thiel — até a consolidação da Tesla e da SpaceX. Gibney destaca contradições recorrentes na carreira do bilionário: de queridinho do governo Obama por seu discurso ambiental ligado aos carros elétricos a apoiador entusiasmado da candidatura de Trump em 2024, após um período de maior distanciamento do governo Biden.

A produção não escapou de controvérsias antes mesmo de sua estreia. Em carta enviada à produtora do documentário, o advogado de Musk, Alex Spiro, acusou Gibney de difamação, alegando que o filme insinua que o bilionário teria interferido no resultado da eleição presidencial de 2024 por meio de seus satélites Starlink — uma teoria amplamente desmentida. A acusação se baseia em uma cena na qual Ashley St Clair relata mensagens recebidas de Musk pouco antes da eleição, nas quais ele se dizia “otimista” quanto à vitória de Trump e mencionava, de forma enigmática, ter “milhares de lasers no espaço”. Segundo a produção, a autenticidade dessas mensagens foi verificada pela rádio pública americana NPR. Musk, por sua vez, classificou publicamente o documentário como uma tentativa deliberada de construir contra ele a pior narrativa possível.
A tensão entre diretor e biografado não é recente: desde o anúncio do projeto, em 2023, Musk já se referia ao filme como um “hit piece”, mesmo antes de qualquer detalhe sobre o conteúdo ter sido divulgado. Nos dias que antecederam a première em Veneza, o bilionário voltou a atacar Gibney em diversas publicações nas redes sociais, chamando-o de tendencioso.
Ainda que o documentário não traga revelações inéditas de peso sobre a vida de Musk, sua força está na amplitude: ao reunir décadas de depoimentos, disputas e contradições em uma única narrativa, Gibney tenta oferecer, segundo ele próprio descreveu durante a coletiva em Veneza, uma visão de conjunto sobre um homem cuja influência se estende por tecnologia, indústria automotiva, exploração espacial, redes sociais e, mais recentemente, política americana. Para o diretor, a história de Musk não representa necessariamente uma novidade no mundo da tecnologia, mas sim uma repetição, em nova embalagem, da figura clássica do homem que constrói fortuna e poder a partir da capacidade de convencer — e de inflar expectativas em torno de si mesmo.