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Kehlani mergulha no R&B dos anos 2000 com álbum que leva seu nome

Por Reinaldo Glioche

Álbuns autointitulados costumam marcar momentos especialmente pessoais na trajetória de um artista, e “KEHLANI” não foge à regra. O projeto apresenta a cantora em sua fase mais honesta, combinando letras confessionais com sonoridade sofisticada e versátil que consolidou seu nome como uma das vozes mais influentes do R&B contemporâneo. Com mais de 20 certificações da RIAA, mais de 5 bilhões de streams globais e sete indicações ao Grammy como artista e compositora, Kehlani chega a esse disco como uma força consolidada.

O álbum foi impulsionado por uma sequência de singles de destaque, começando por “Folded”, um verdadeiro fenômeno que se firmou como um dos principais sucessos do R&B na década. A faixa rendeu dois prêmios no Grammy Awards (Melhor Canção de R&B e Melhor Performance de R&B), além de um iHeartRadio Music Awards na categoria Canção de R&B do Ano — ocasião que marcou sua estreia em performances na premiação. Com mais de 800 milhões de streams globais, a canção alcançou o 6º lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 43 semanas no ranking, liderando as rádios nos formatos Urban, Rhythmic e R&B. O single garantiu à artista seu primeiro #1 solo na parada Billboard Rhythmic Airplay. O projeto “Folded Homage Pack” ampliou seu impacto cultural com releituras assinadas por nomes como Toni Braxton, Brandy, JoJo, Mario, Ne-Yo e Tank.

A estratégia de Kehlani é inteligente: em vez de perseguir tendências, ela mergulha no passado. O disco soa como se tivesse sido gravado em 2006, não em 2026 e, para quem acompanha o gênero, isso é elogio máximo. A produção, assinada por nomes como os Stereotypes, Khris Riddick-Tynes e Andre “Dre” Harris, privilegia o R&B moderno com pitadas de hip-hop levemente defasado. “Anotha Luva”, com Lil Wayne, é um banger codificado nos anos 2000, repleto de hi-hats e cordas sorrateiras antes das trombetas explodirem. “Still” flui com serenidade enquanto Kehlani lamenta arrependimentos sem cair em raiva infantil.

O conceito do álbum é anunciado logo no início: Kehlani está “entrando em sua verdade sem medo, sem filtro e sem desculpas”. “Folded”, claro, é o centro gravitacional. A metáfora das roupas dobradas do amante como representação da necessidade de distância é de uma simplicidade que só Kehlani poderia flashear com tanto pathos. “Out The Window” reforça essa transparência emocional, enquanto “Back and Forth”, em parceria com Missy Elliott, une a vulnerabilidade característica de Kehlani à assinatura inovadora da veterana.

“Cruise Control” oferece um momento de êxtase não planejado — aquele riff de “uh-uh-uh” após o primeiro refrão é daqueles que não se ensaiam. “Unlearn”, com teclado reminiscente do auge da Stargate, transforma linguagem terapêutica em algo empaticamente cantado. “Oooh” usa eufemismos em vez de letras grosseiramente explícitas — a diferença entre sexy e bobo. Os duetos de alto perfil funcionam como coroação: “I Need You”, com Brandy, é pura química vocal; “Shoulda Never”, com Usher, inclui uma sessão de rap estilo soletrado onde Kehlani não apenas sustenta a parceria, mas parece estar em pé de igualdade com o veterano artista.

O problema começa quando a lista de convidados se torna excessiva. Cardi B em “Pocket” soa totalmente adicionada, com uma linha sobre “presunto e queijo” que mereceria processo criminal. Big Sean em “Lights On” oferece contribuições mortificantes. Lil Jon e T-Pain em “Call Me Back” parecem nostalgia bait e Leon Thomas em “Sweet Nuthins” soa tão similar a “Folded” que parece remix não oficial, com mixagem problemática.

Kehlani vive um ano marcante: participação surpresa no show de Giveon no Coachella, apresentação solo no Revolve Festival e performance em episódio de “In The Paint”, da Amazon, exibido durante o NBA Nightcap. “KEHLANI”, portanto, é um álbum de contrastes: entre a clareza emocional e o excesso de features; entre a vontade de competir e a necessidade de validação de ícones do passado. Funciona melhor quando a artista está sozinha ou em diálogo com iguais que a elevam. Ainda assim, representa o trabalho mais confiante e coeso de sua carreira. Kehlani não precisa ser a “nova salvadora do R&B”; ser uma sobrevivente que finalmente encontrou a artista que sempre foi destinada a ser já é conquista suficiente.

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