Reinaldo Glioche
A Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) entrou com uma ação judicial antitrust contra a Penske Media, dona de veículos como “Variety”, “The Hollywood Reporter” e “Deadline”, acusando o conglomerado de orquestrar um boicote à premiação Globo de Ouro para comprá-la por um valor inferior. O processo, aberto na terça-feira (28) na Califórnia, pede mais de US$ 150 milhões em danos e descreve o caso como um “esquema clandestino para adquirir de forma fraudulenta a premiação Globo de Ouro, com 80 anos de história, destruir sua antiga proprietária e exercer monopólio sobre mercados de publicidade, premiação e publicações de Hollywood”.
A controvérsia remonta a 2021, quando o LA Times revelou a ausência de membros negros na HFPA e denunciou práticas éticas questionáveis. Na sequência, estrelas e emissoras boicotaram o evento. Segundo a denúncia, a Penske teria usado suas publicações para incentivar o boicote, desvalorizando intencionalmente a organização antes que Todd Boehly, então executivo interino da HFPA, participasse da aquisição do Globo de Ouro pela Dick Clark Productions — empresa que a Penske passou a controlar. A operação, concluída em junho de 2023, transferiu os ativos da premiação para uma nova estrutura comercial, enquanto a HFPA deveria ser extinta.
O processo expõe o grau de concentração vertical da Penske no ecossistema do entretenimento americano. Além das principais publicações de Hollywood, o conglomerado controla o Dick Clark Productions — responsável pelo Globo de Ouro, American Music Awards, Billboard Music Awards e ACM Awards —, a empresa de dados Luminate, o site de prognósticos Gold Derby e o festival SXSW. Na formulação da denúncia, o resultado é um ecossistema no qual “publicações da Penske promovem concorrentes da Penske para premiações da Penske, previstas por um site da Penske”.
A ação também acusa Gregory Goeckner, ex-advogado-geral da HFPA, de transferir cerca de US$ 4 milhões da associação para a nova Golden Globe Foundation, deixando a entidade sem recursos para sobreviver. A Penske Media ainda não se manifestou publicamente sobre as alegações.

O caso reacende debates sobre conflitos de interesse na cobertura jornalística de Hollywood. Proprietária de Variety, THR e Deadline, a Penske enfrenta o desafio de fazer com que esses veículos noticiem imparcialmente um processo que atinge o próprio conglomerado. O Hollywood Reporter publicou a notícia, mas outras publicações do grupo não o fizeram imediatamente. A questão central, no entanto, vai além: como um único conglomerado foi autorizado a consolidar tanto do ecossistema midiático do entretenimento sem resistência significativa do mercado ou das autoridades reguladoras.