Redação Culturize-se
A transição para a vida adulta sempre foi desafiadora, mas para a Geração Z nos Estados Unidos ela ganhou contornos particularmente adversos. Dois estudos recentes — um deles da Oxford Economics — mostram que os jovens entre 16 e 24 anos enfrentam um mercado de trabalho marcado pela combinação inédita de “não contratação, não demissão”. É um ambiente que preserva quem já está empregado, mas fecha portas para quem tenta entrar. Como consequência, o desemprego entre trabalhadores de 20 a 24 anos saltou 2,1 pontos percentuais desde 2023, enquanto as demissões cresceram justamente entre os mais jovens, de 22 a 28 anos. Para completar, o crescimento salarial desse grupo caiu mais rapidamente do que o de qualquer outra faixa etária.
Esse quadro tem implicações profundas. A literatura econômica mostra que crises no início da carreira deixam cicatrizes permanentes, reduzindo o potencial de ganhos ao longo da vida. Normalmente, jovens se beneficiam de mobilidade elevada — trocam de emprego, acumulam habilidades e avançam rapidamente. Agora, com vagas escassas e mobilidade estagnada, a trajetória salarial inicial se achata. A falta de oportunidades não apenas limita aumentos futuros como também atrasa a acumulação de riqueza, já que a Geração Z parte praticamente do zero em patrimônio numa era de imóveis inflacionados e ativos valorizados.
Outro sinal de estresse é o aumento das taxas de inadimplência em cartões de crédito. Mesmo com níveis gerais de endividamento menores do que os das gerações anteriores na mesma idade, a Geração Z depende mais do crédito para fechar o mês, justamente num período de juros altos e renda estagnada. A pressão econômica também influencia decisões educacionais: entre 2018 e 2022, a matrícula em faculdades de dois anos despencou de 25% para 17%, reflexo de um mercado de trabalho temporariamente aquecido e de mensalidades crescentes. Agora, com o mercado arrefecendo, especialistas preveem que muitos jovens podem voltar a buscar qualificação — embora apenas aqueles que conseguem pagar tenham essa opção.
Geograficamente, a Geração Z tem buscado alternativas mais acessíveis, concentrando-se em grandes áreas metropolitanas do Sudoeste, especialmente no Texas, onde o custo de vida é relativamente mais baixo. Mas mesmo essa migração oferece alívio limitado diante de um mercado que simplesmente não absorve novos trabalhadores na velocidade necessária.
Apesar do cenário preocupante, os pesquisadores lembram que a situação não é inédita. Os Millennials enfrentaram a Grande Recessão de 2008, que elevou drasticamente o desemprego e empurrou muitos para a casa dos pais. Mas a recuperação daquela geração só ocorreu quando o mercado de trabalho voltou a oferecer crescimento salarial robusto — algo ainda distante para a Geração Z atual. Em comum entre as duas gerações está o risco maior de “cicatrizes econômicas”: salários menores por longos períodos, adiamento da independência e dificuldade de acumular patrimônio.

E no Brasil?
Dados recentes mostram que a inserção dos jovens no mercado de trabalho brasileiro vive um momento de melhora, mas ainda marcada por desigualdades e informalidade. Em 2025, a taxa de desocupação nacional caiu para 5,6%, acompanhada de crescimento na população ocupada. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, houve avanço relevante na ocupação de jovens de 14 a 24 anos no fim de 2024, com queda do grupo que não estuda nem trabalha — os “nem-nem”, que passou para 18,5%. A tendência indica reinserção, ainda que muitas vezes combinando trabalho informal e estudos.
As vulnerabilidades, porém, seguem profundas. Estudos do FGV IBRE apontam que regiões com maior proporção de jovens, sobretudo Norte e Nordeste, apresentam menores taxas de participação no mercado, maior desemprego e altos índices de subocupação. A informalidade continua sendo porta de entrada predominante para muitos jovens, impactando renda, direitos e perspectivas de longo prazo.
Nesse cenário, políticas públicas precisam atuar em três frentes: fortalecer a transição escola-trabalho com aprendizagem, ensino técnico e qualificação; estimular a formalização e empregos de qualidade; e reduzir desigualdades regionais com investimentos em infraestrutura, conectividade e desenvolvimento local. A capacitação em setores emergentes — tecnologia, economia digital, serviços especializados — é estratégica para garantir competitividade futura.
O Brasil vive uma janela de oportunidade. A melhora recente pode inaugurar um ciclo virtuoso de inclusão produtiva juvenil — desde que políticas públicas e setor privado invistam de forma consistente na formação e na formalização dessa geração. Sem isso, o avanço pode se dissipar e reforçar ciclos históricos de precariedade.
No curto prazo, a Geração Z tende a adotar uma postura financeira mais conservadora, reduzindo consumo e adiando decisões importantes, como formar família, comprar casa ou investir em educação. No longo prazo, a intensidade e a duração dessa estagnação definirão se a geração conseguirá recuperar o terreno perdido — ou se a economia carregará os efeitos dessas cicatrizes por muitos anos.